O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou hoje à Rússia em visita oficial para impulsionar a cooperação bilateral, a reforma das Nações Unidas e do sistema financeiro internacional e o diálogo com o Irã.
Lula inicia na Rússia uma viagem que incluirá também visitas ao Catar, Irã, Espanha e Portugal. Em Moscou, ele abordará esses e outros assuntos amanhã em suas reuniões com o presidente russo, Dmitri Medvedev, e com o primeiro-ministro, Vladimir Putin.
“A cooperação multilateral russo-brasileira se caracterizou nos últimos anos por uma dinâmica estável e positiva”, informou hoje o Kremlin.
Após iniciar a agenda oficial em Moscou com uma oferenda de flores no túmulo do Soldado Desconhecido, Lula pronunciará um discurso em um fórum empresarial russo-brasileiro em um hotel da cidade.
Em seguida, o presidente irá ao Kremlin para se reunir com Medvedev e assinar vários acordos e memorandos bilaterais, entre eles um programa de cooperação técnico-científica para o período 2010-2012 e outro de colaboração militar.
Os dois chefes de Estado também emitirão uma declaração política conjunta sobre o 65º aniversário da vitória russa sobre a Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial.
Durante as conversas com os líderes russos, Lula abordará o chamado Plano de Ação da Associação Estratégica, assinado recentemente por Brasil e Rússia. Também falarão sobre a possibilidade de utilizar as moedas nacionais nas trocas comerciais bilaterais, em substituição ao dólar.
No plano internacional, um dos assuntos apoiados pelas duas partes é a necessidade de reformar o Conselho de Segurança da ONU e instituições financeiras, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (BM), para dar mais voz e votos aos países emergentes.
Lula visitou a Rússia pela última vez em agosto de 2009 para participar da primeira cúpula formal do grupo Bric (formado por Brasil, Rússia, Índia e China), que defende um sistema de moedas mais diversificado, estável e previsível.
No mês passado, durante a segunda cúpula do Bric em Brasília, Lula se reuniu com Medvedev, que fazia então sua segunda viagem à América Latina desde que assumiu a Presidência russa, em maio de 2008.
Naquela ocasião, os líderes brasileiro e russo também reivindicaram a reestruturação do FMI e do BM para assegurar um mundo mais justo, que promova o desenvolvimento sustentável, com mecanismos mais democráticos e transparentes de tomada de decisões.
Segundo as agências russas, Lula também conversará com Medvedev e Putin sobre a crise nuclear do Irã, país aonde viajará no domingo para se reunir com o líder Mahmoud Ahmadinejad.
O Irã protagoniza uma polêmica internacional por desenvolver um suspeito programa nuclear, acusado por países ocidentais de ter objetivos bélicos. Teerã nega as acusações, mas os Estados Unidos e outras nações buscam aplicar novas sanções internacionais no Conselho de Segurança da ONU contra o regime iraniano.
Lula se ofereceu para mediar o conflito entre Irã e o Ocidente para evitar a imposição de sanções e persuadir o Governo iraniano a cooperar com a comunidade internacional para dissipar as suspeitas de que seu programa nuclear tem fins militares.
O Brasil apresentou uma proposta segundo a qual o Irã trocaria combustível nuclear com a Turquia, país que tem estreitos laços tanto com Ocidente como com o Oriente Médio. O Irã enviaria urânio ao exterior e o receberia de volta enriquecido a 20%, nível suficiente para fins pacíficos.
Segundo a imprensa iraniana, Ahmadinejad disse que aceitou “em princípio” a proposta de Lula durante uma conversa telefônica com o líder venezuelano, Hugo Chávez.
“Se a proposta for apoiada por todos os participantes do processo, essa não seria uma saída ruim da atual situação”, declarou ontem Dmitri Medvedev a respeito, durante sua visita à Turquia.
O Irã já rejeitou no ano passado uma oferta similar da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), em virtude da qual Rússia e França teriam enriquecido urânio com destino às usinas nucleares iranianas.
Além disso, Moscou e Brasília buscarão “ampliar a cooperação bilateral na realização de projetos conjuntos em grande escala” nas esferas energética e de alta tecnologia, informou o Kremlin.
O Brasil almeja adotar o sistema de navegação por satélite russo Glonass – que compete com o americano GPS – e a tecnologia russa de produção de gás liquidificado. Além disso, o Brasil quer cooperar na fabricação de aviões civis e militares e em naves e foguetes espaciais.
A Rússia, por sua vez, está interessada em participar da construção de centrais termelétricas e hidrelétricas no Brasil e participar da exploração de jazidas de gás na plataforma continental brasileira.
Devido à crise econômica mundial, o comércio bilateral sofreu uma drástica queda de 32% em 2009, no patamar de US$ 4,5 bilhões.