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‘Losango de Merkel’ vira boneco, publicidade e arma de campanha em eleição alemã

Merkel anunciou em 2018 que não concorreria à eleição parlamentar deste ano e se aposentaria da política partidária

Por FolhaPress 13/09/2021 7h07
German Chancellor Angela Merkel arrives to lead the weekly cabinet meeting at the Chancellery in Berlin, Germany January 6, 2021. John Macdougall/Pool via REUTERS

Ana Estela de Sousa Pinto
BRUXELAS, BÉLGICA

As mãos em forma de losango, marca registrada da primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel, viraram arma de campanha eleitoral, estratégia de marketing e até bonecos que servem de porta-incenso na reta final de governo da política conservadora. Merkel anunciou em 2018 que, após 16 anos no governo, não concorreria à eleição parlamentar deste ano, marcada para 26 de setembro, e se aposentaria da política partidária.

A saída de cena da líder que mantém um alto índice de aprovação –60%, no dado mais recente– abriu uma disputa pelo papel de seu mais próximo herdeiro. Pelo título concorrem Armin Laschet, candidato da União (CDU-CSU) –partido conservador, de Merkel–, e Olaf Scholz, atual ministro das Finanças e candidato do PSD, social-democrata.

O “losango de Merkel”, também chamado de diamante pela mídia inglesa, não tem na Alemanha a conotação sexual que desaconselha seu uso por políticos do Brasil ou dos EUA, por exemplo, países onde o gesto pode ser interpretado como uma alusão à vagina. O sinal já foi símbolo de campanha à reeleição da primeira-ministra, em 2013; neste ano, porém, ficou famoso pelas mãos de Scholz, na foto de capa da revista do jornal Süddeutsche Zeitung.

“Não diga nada, Scholz” é o título da publicação, e de fato isso parece ser desnecessário. Por enquanto, é ele quem melhor representa para os eleitores o estilo confiável da primeira-ministra, o que se deve tanto a seus acertos na estratégia de imagem quanto a tropeços do rival conservador.

Laschet hesitou em momentos cruciais, como nas enchentes de julho, que mataram 177 pessoas e devastaram cidades –principalmente no estado que ele comanda, a Renânia do Norte-Vestfália. Em contraste, o pacote de ajuda financeira organizado pelo governo nacional, com Scholz à frente, sobressaiu.

A partir da tragédia, as intenções de voto na União despencaram, enquanto as do SPD não pararam de subir. Em cerca de um mês, os sociais-democratas ultrapassaram os rivais e lideram hoje a corrida pelo posto de maior partido do Bundestag (o Parlamento alemão), com 25% dos votos, na média das pesquisas, contra 20% da União –que, em algumas pesquisas, já aparece abaixo dessa marca– e 17% dos Verdes.

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Scholz é visto como mais competente que Laschet (55% contra 14%), mais confiável (43% a 15%), mais capaz de liderar (53% a 15%) e mais simpático (42% a 13%). Embora os eleitores alemães não escolham diretamente seu primeiro-ministro, o social-democrata também aparece na frente em pesquisas que fazem essa pergunta hipotética.

Depois de um debate na TV realizado no começo deste mês, o atual ministro das Finanças foi apontado como o preferido para ser premiê por 43% dos alemães, mais que o dobro de Laschet (16%) e mais que o triplo da candidata dos Verdes, Annalena Baerbock (12%).

São números que fortalecem sua imagem, mas, para se tornar chefe do governo alemão, Scholz precisará primeiro que seu partido obtenha o maior número de assentos no Parlamento, o que praticamente garante que seu nome seja proposto para primeiro-ministro.

Depois disso, ele terá que receber os votos de metade mais um dos deputados eleitos –o que, pelo que indicam as pesquisas até agora, exigirá uma coalizão de no mínimo três partidos, já que não há duas agremiações que, somadas, obtenham essa maioria.

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Num cenário de tantas indefinições, o fato de essa ser a primeira vez em décadas que um premiê no cargo não disputa a reeleição aumenta ainda mais a imprevisibilidade eleitoral. Mas, nos outdoors das cidades alemãs, não é só na propaganda política que a imagem de Merkel é disputada. Sua despedida também serviu de pretexto para anúncios publicitários, em que suas mãos em losango são o destaque.

“Adeus, Mamãe” (“Tschüss Mutti”, no original) é o slogan estampado pela fabricante de laticínios Berchtesgadener Land, sobre a imagem do gesto icônico “segurando” um copo de leite, à frente de um dos blazers em tons pastel da primeira-ministra alemã —nesse caso, um verde-folha.

Além do cartaz gigante, com mais de 300 metros quadrados, no centro da cidade, a imagem será exibida também em uma tela animada ao redor da praça Mercedes, perto do Muro de Berlim. “Gostaríamos de nos despedir da chanceler federal [como o cargo de primeiro-ministro é chamado na Alemanha] com sua marca no coração da capital, juntando bom humor e sabor”, disse um diretor da indústria de laticínios, Bernhard Pointner, a um site sobre mídia alemão.

No leste da Alemanha, milhares de pequenas Merkels com as mãos em frente ao ventre também saem das linhas de produção da Seiffener Volkskunst, fabricante de porta-incensos em Seiffen. As primeiras 300 figuras de madeira, com 14 centímetros de altura e três versões de figurino –rosa, roxo e turquesa–, já foram todas vendidas, segundo o diretor Andreas Bilz.

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O fabricante afirma que os bonecos são uma homenagem à despedida da primeira-ministra. Ele prometeu doar 10% das receitas às vítimas das enchentes de julho.

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