As leis abolicionistas em vez de acabar com a prostituição em Phnom Penh condenaram centenas de mulheres a exercer clandestinamente a profissão nos velhos distritos da cidade ou disfarçadas no porão de todo tipo de negócios.
As luzes de neon desapareceram do bairro vermelho de Tuol Kork e uma fileira de novos e reluzentes hotéis ocupa o espaço dos bordéis fechados depois que entrou em vigor a lei contra o tráfico de pessoas de 2008.
Muitos de seus quartos, no entanto, estão alugadas por mulheres que agora trabalham por conta própria e sem ninguém que as defenda ou proteja dos abusos de clientes e das extorsões da Polícia.
“Ele me bateu e me atirou da moto porque me neguei a ir ao hotel que queria”, explica uma das meninas desse bairro com ferimentos abertas na cabeça e no ombro.
Um conjunto de lascas chamuscadas de madeira ao longo da via do trem que serviam de prostíbulos há um ano se transformaram em casas habitadas por famílias e prostitutas que passam ali o dia até que chega a hora de sair para buscar clientes.
Este grupo sofre com os danos causados pelo vírus da aids.
“A maioria delas toma drogas e poucas vezes utilizam o preservativo”, assegura Phallika da Afesip, organização que atende estas mulheres dando-lhes informação em prevenção do HIV ou ajudando-as a deixar a rua.
“Muitas não levam preservativo na bolsa por medo de que a Polícia as acuse de serem prostitutas e as detenha”, explica Phallika.
Uma cambojana que encontrou na prostituição a única saída para a rejeição de sua aldeia após pedir o divórcio de seu marido assegura que sempre pede aos clientes que ponham, “mas os clientes pagam mais para fazer sexo sem preservativo”.
Apesar de tudo as jovens de Tuol Kork consideram que com o fechamento dos prostíbulos suas condições de vida melhoraram em geral.
“Vivi três anos sem ver o sol”, lembra Van Sina, e relata que sua vida transcorria em um quarto escuro onde era obrigada a atender até vinte clientes por dia, se não queria ser castigada.
“Se passávamos tempo demais com o cliente, nos castigavam. Se ele saía insatisfeito, também. Às vezes nos batiam. Outros, nos amarravam e nos davam choques elétricos”, diz Van.
“Não ganhamos tanto dinheiro, quando um cliente não quer pagar ou vem a Polícia não temos ninguém que nos proteja, mas agora somos livres”, explica outra das cambojanas de Tuol Kork.
Essa falta de liberdade é a que, segundo Phallika, ainda sofrem centenas de moças em cafés, salões de massagens, karaokês, cervejarias, clubes e bares, os negócios “alternativos” nos quais a prostituição buscou refúgio após a aprovação da lei em 2008.
Apesar de não ter estatísticas confiáveis, o número de jovens que trabalham no setor cresce sem cessar e não só por culpa das máfias dedicadas ao tráfico.
“Uma menina ganha cerca de US$ 80 por mês trabalhando sete dias por semana em uma fábrica. Nos clubes há meninas que estabelecem uma relação com dois ou três clientes e podem chegar a ganhar US$ 1 mil por mês”, explica Bruno Maltoni, diretor do escritório da Organização Internacional para as Migrações das Nações Unidas.
“Nos últimos anos houve uma mudança de mentalidade. Antes, embora trabalhassem nas fábricas e apesar de depender desse dinheiro, as famílias pensavam mal das que viviam sozinhas na cidade”, acrescentou o funcionário da ONU.
“Hoje as famílias não querem saber de onde vem o dinheiro. Para elas é indiferente”, conclui Maltoni.