WASHINGTON, EUA – Na família de Joe Biden, há um ditado que diz que as três piores palavras que alguém pode ouvir são “você tem câncer”.
Dez anos atrás, seu filho, Beau, morreu de um tumor cerebral. Anos depois, sua esposa, Jill, teve duas lesões cancerígenas removidas, em seu próprio contato com a doença.
Agora é a vez do ex-presidente. O gabinete de Biden divulgou seu diagnóstico de câncer de próstata no dia 18 de maio, dizendo que a doença já havia se espalhado para os ossos.
Embora o câncer possa ser controlado com tratamento, ele não tem mais possibilidade de cura. O anúncio é uma revelação amarga de que uma doença que trouxe tanta tragédia para a vida de Biden pode ser a mesma que causará seu fim.
“O câncer atinge a todos nós”, escreveu Biden nas redes sociais. “Como muitos de vocês, Jill e eu descobrimos que somos mais fortes nos momentos difíceis.”
Mesmo antes do diagnóstico, o período pós-presidencial de Biden vinha sendo marcado por discussões sobre sua saúde e sobre a decisão de concorrer à reeleição. À medida que aumentavam as dúvidas sobre sua aptidão para o cargo, ele abandonou a campanha, e Donald Trump retomou a presidência, derrotando Kamala Harris. Enquanto Biden, aos 82 anos, tenta proteger seu combalido legado político, também precisará enfrentar uma doença que moldou os capítulos finais de suas décadas de carreira.
Biden era vice-presidente de Barack Obama quando Beau morreu, em 2015. Ele decidiu não concorrer à indicação do Partido Democrata no ano seguinte, o que ajudou a pavimentar o caminho para Hillary Clinton, derrotada por Trump em 2016.
Valerie Jarrett, assessora de Obama de longa data, diz que Biden queria “canalizar seu luto para a ação e descobrir como seria possível melhorar” o tratamento do câncer para “garantir que outras pessoas não precisassem passar pelo que ele passou”.
A iniciativa foi formalizada em uma força-tarefa da Casa Branca, com Biden à frente. Depois de alguns anos fora do cargo, Biden voltou à política para fazer campanha contra Trump, em 2020. Mas a dor pela morte Beau nunca esteve muito distante.Seu filho mais velho foi procurador-geral do estado de Delaware, e era visto por muitos como sucessor político de Biden.
“Era Beau quem deveria estar concorrendo à presidência, não eu”, disse Biden, um pensamento que ele repetiu em muitas ocasiões.
Ele tornou a luta contra o câncer um foco de seu mandato, retomando uma iniciativa audaciosa para aumentar o financiamento em pesquisa e melhorar os tratamentos. Ele revelou essa iniciativa na Biblioteca e Museu Presidencial John F. Kennedy em 2022, recordando o famoso discurso do ícone democrata ao declarar, sessenta anos antes, que “iremos à Lua”.
“Vencer o câncer é algo que podemos fazer juntos”, disse Biden.
A essa altura, ele já havia sancionado uma lei conhecida como Lei PACT para ampliar os benefícios de saúde para os veteranos de guerra. A lei garante tratamento para doenças crônicas atribuídas aos poços de queima, que eram usados para descarte de produtos químicos, pneus, equipamentos médicos e dejetos humanos em bases militares.
Biden não deixou dúvidas de que considerava que a morte de Beau era resultado de seu tempo de serviço na Guarda Nacional, no Iraque.
“Quando voltaram para casa, muitos dos melhores e mais capazes combatentes que mandamos para a guerra não eram mais os mesmos – dores de cabeça, dormência, tontura, câncer”, disse. “Meu filho Beau foi um deles.”
Denis McDonough, que liderou o Departamento dos Assuntos de Veteranos durante o governo Biden, conta que o presidente não falava sobre a morte de Beau durante as discussões das políticas Mas diz que ficava claro que Biden “sabia que experiência as outras famílias estavam tendo, e queria garantir que não perderíamos a oportunidade de lidar com isso”.
McDonough lembra que Biden queria que a nova lei entrasse em vigor o mais rápido possível.
“Ele tinha a opção de estender o prazo”, diz. “E disse que de jeito nenhum.”
No ano seguinte, a primeira-dama, Jill Biden, retirou duas lesões cancerígenas, uma sobre o olho direito, e outra no peito. Ambas eram carcinomas basocelulares.
Descobrir o diagnóstico foi “um pouco mais difícil do que eu imaginava”, contou à Associated Press durante uma viagem à África.
“Tive sorte”, ela disse. “Acredite, tive muita sorte de terem descoberto, removido, e agora estou saudável.”
O diagnóstico de câncer de Biden não é seu primeiro encontro com a própria mortalidade
Meses depois do fim de sua primeira campanha presidencial, em 1988, ele desmaiou em um quarto de hotel em Nova York. Em seu livro de memórias, “Promises to Keep” (Promessas a Cumprir), ele descreve “um relâmpago piscando dentro da cabeça, uma forte corrente elétrica – e depois uma onda de dor como nunca havia sentido antes”.
Ele havia sofrido um aneurisma, que exigiu intervenção cirúrgica Biden escreve que “eu não tinha um verdadeiro medo de morrer. Já tinha aceitado há muito tempo o fato de que as garantias da vida não incluem uma chance justa.”
McDonough imagina que Biden deva ter um sentimento semelhante em relação à sua situação atual.
“Ele está sempre pensando na próxima luta”, diz.
Estadão Conteúdo