A Turquia entrou hoje em uma nova fase de sua história, order depois da escolha, health pelo Parlamento, do islamita Abdullah Gül para presidente de um país com longa tradição secular. Em seu discurso ao Parlamento, Gül defendeu fortemente os princípios fundamentais da República, especialmente o princípio do secularismo. Ele definiu este preceito como uma norma para a paz social, que também garante a liberdade de religião.
“Como presidente da República, eu juro pela minha honra e integridade, frente à nação turca e perante a história, salvaguardar a existência e a independência do Estado”, disse Gül, no juramento para assumir a Presidência, que deterá pelos próximos sete anos.
Além disso, ele se comprometeu a defender “a integridade indivisível da nação, cumprir a Constituição, (respeitar) a democracia e o princípio da República secular”. Em seu discurso, ressaltou ainda que, com sua eleição, a Turquia optou por ser membro da União Européia (UE) e deve continuar perseguindo este objetivo, através de reformas para o bem do povo.
É a primeira vez que um islamita chega à Presidência da Turquia, ocupada pela primeira vez, em 1923, por Mustafa Kemal Atatürk, considerado o fundador da Turquia moderna e secular. Gül é o principal assessor do primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdogan, líder do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP), e integrou seu Gabinete como ministro de Assuntos Exteriores durante quatro anos.
A idéia de que um “islamita” possa presidir a República turca é completamente inaceitável para os círculos mais seculares, como o principal partido da oposição, o Partido Republicano do Povo (CHP). Seus membros conseguiram impedir a nomeação de Gül em abril, desencadeando uma crise que conduziu a eleições gerais antecipadas em julho. Graças ao CHP, ainda, as duas primeiras rodadas da eleição parlamentar, nos dias 20 e 24, fracassaram e nenhum candidato foi eleito.
No entanto, a vitória de Gül era certa hoje, na terceira rodada, quando precisava de maioria absoluta: recebeu 339 dos 448 votos emitidos na Grande Assembléia Nacional (de 550 cadeiras).
Seus oponentes, o nacionalista Sabahattin Çakmakoglu e o socialista Tayfun Içli, obtiveram 70 e 13 votos, respectivamente, enquanto 24 deputados votaram em branco e duas cédulas foram invalidadas. Erdogan anunciou que apresentará amanhã a formação de seu novo Gabinete, após as eleições gerais de 22 de julho.
O Governo só será formado agora porque o antecessor de Gül na chefia do Estado, Ahmet Necdet Sezer, tinha se negado a aprovar o novo Executivo e tinha afirmado que era preciso esperar a nomeação de seu sucessor.
Agora, os observadores se perguntam como vão reagir os círculos de caráter mais secular – especialmente o Exército – ao fato de que as três posições-chave do poder do Estado estejam atualmente nas mãos do partido islamita AKP: o de presidente, de primeiro-ministro e de presidente do Parlamento.
Além disso, de acordo com a Constituição turca, o presidente é também o chefe das Forças Armadas, um dos núcleos duros do laicismo.
No dia 27 de abril, o Exército deixou clara sua posição em um memorando, advertindo que defenderá os princípios seculares. Na segunda-feira, a instituição voltou a emitir uma mensagem contra o islamismo, desta vez mais suave.
O chefe do Estado-Maior, o general Yasar Büyükanit, assegurou em sua mensagem do Dia da Vitória – uma festividade militar celebrada no dia 30 de agosto – que os ataques internos e externos contra a Turquia aumentaram nos últimos dias.
O militar falou de “forças” que não seriam capazes de entender a base científica e lógica do “pensamento kemalista” (baseado nos princípios republicanos e laicos estabelecidos por Mustafa Kemal Atatürk) e que estariam tentando destruir o secularismo do Estado turco.
Para os analistas turcos, este tipo de declaração é freqüente no Dia da Vitória, mas emiti-la três dias antes da comemoração para que fosse divulgada um dia antes da escolha de Gül foi muito “significativo”.
Em turco, a palavra Gül significa “rosa”, o que simboliza um modo harmonioso de tratar as questões, buscando a unidade. Entretanto, não é possível dizer ainda se, na Presidência, Gül conseguirá ganhar a confiança do Exército, que tem um histórico de quatro golpes militares (em 1960, 1971, 1980 e 1997).
Hayrunisa Gül, a esposa do novo chefe de Estado, vinha sendo excluída dos convites direcionados à Presidência, apesar de ser, então, a esposa do chefe da diplomacia. A razão era seu véu muçulmano, proibido nas instituições laicas da Turquia.
Ela também não pôde estar presente hoje na cerimônia no Parlamento, nem na transferência de poder de Sezer a Gül, no Palácio Presidencial de Çankaya, que agora será sua residência.
Quando Sezer deixou o palácio, muitos turcos o apoiaram. “A Turquia está muito orgulhosa do senhor” e “A Turquia é secular e continuará sendo secular” foram algumas das palavras de ordem que gritaram.
Ao mesmo tempo, uma multidão de cidadãos celebrava com música e fogos de artifício a escolha do islamita Gül na Praça da República de Kayseri, cidade do norte do país onde nasceu o novo presidente.
Muitos turcos acreditam que Gül encontrará o caminho para aplacar as tensões: o novo presidente já assegurou, antes de sua nomeação, que respeitará e defenderá os princípios básicos da república kemalista e do secularismo.
A maioria dos analistas políticos espera que a “era de Gül” fortaleça o país em seu caminho em direção a UE e leve à pacificação no Chipre. O norte da ilha foi ocupado pelos militares turcos em 1974, onde a administração militar proclamou uma república turco-cipriota, reconhecida apenas pela Turquia.
Já os empresários esperam mais apoio para o desenvolvimento do comércio e para relações econômicas internacionais. Os deputados independentes de origem curda que apoiaram Gül hoje no Parlamento esperam que o novo presidente promova o reconhecimento dos direitos culturais dos cidadãos curdos.