IGOR GIELOW
FOLHAPRESS
Na reta final de mais um ultimato dado por Donald Trump em sua guerra contra o Irã, os rivais estudam propostas para encerrar as hostilidades. Os sinais dados por ambos os lados, contudo, não sugerem que um acordo será fácil.
O Irã, afirmou que a guerra continuará até quando for preciso e ofereceu aos Estados Unidos dez pontos para negociar, incluindo um acordo para o uso de Hormuz, o fim das sanções econômicas ao país e provisões para a reconstrução do país. Teerã rejeitou uma trégua provisória, pedindo um solução definitiva para os conflitos na região.
“É significativo, mas não é bom o bastante”, comentou o presidente americano, que não chegou a dar aval a qualquer cessar-fogo, algo que havia sido ventilado por um período de 45 dias. Ele havia feito a quarta extensão de prazo para que a teocracia reabra o estratégico estreito de Hormuz no domingo (5), sob pena de “explodir tudo” -no caso, infraestrutura civil como usinas de energia e pontes.
Segundo Trump, o prazo é final e não negociável. Ele voltou a citar a necessidade de Teerã ser impedida de desenvolver armas nucleares, indo e voltando nas suas motivações a cada fala sobre o tema. O republicano disse que os rivais tiveram “um tiro de sorte” ao derrubar um caça F-15 dos EUA e que vão “pagar um grande preço”.
A movimentação ocorre em meio a mais tensão na região. As forças de Israel mataram nesta segunda o general Majid Khademi, chefe de inteligência da poderosa Guarda Revolucionária, principal ente do regime islâmico do Irã. Ele foi morto em um bombardeio no começo da manhã em Teerã.
Com isso, a face de decapitação do regime da campanha militar liderada pelos Estados Unidos segue nas mãos principalmente de Israel, que na aurora da guerra matou o líder supremo, Ali Khamenei, e dezenas de chefes militares e políticos.
O ultimado dado pelo presidente americano venceria na noite desta segunda-feira (6), mas, após destempero verbal nunca antes visto numa postagem presidencial recheada de palavrões, Trump concedeu uma entrevista dizendo que esperaria até as 21h de terça (7), no horário de Brasília.
De lá para cá emergiram múltiplos relatos acerca da mais recente proposta americana, enviada por meio de militares paquistaneses. Os detalhes são escassos, mas preveem os tais 45 dias, citados inicialmente pelo site americano Axios.
Segundo o site e veículos como as agências Reuters e Associated Press, o centro do debate é o mesmo que embasou o acordo de 2015 para coibir o programa nuclear do Irã: trocar a renúncia à bomba atômica pelo fim de sanções.
Mas os entraves seguem os mesmos que levaram Trump a deixar o acordo em 2018: os iranianos não abrem mão de manter capacidade de processamento e enriquecimento de urânio, o que deixa a porta aberta para violações futuras.
As negociações sobre o tema haviam sido reabertas neste ano, após os megaprotestos contra o regime iraniano. Trump aparentemente acreditava que o enfraquecimento faria Teerã ceder, mas acabou por lançar sua guerra no meio das rodadas de conversas.
A contraproposta foi então confirmada pela chancelaria iraniana nesta segunda, mas ainda não há uma resposta de Washington.
A escalada de tom de Trump no fim de semana, embora possa ser lida como seu típico método negociador de subir a aposta antes de buscar um acordo, manteve os ânimos exaltados.
“O presidente americano ameaçou publicamente cometer crimes de guerra”, disse o vice-chanceler Kazem Gharibabadi no X. Ele está correto, à luz da lei internacional, caso os ataques de Trump não tenham objetivo militar claro. Daí a alguém ser punido, porém, é outra história.
O comando militar iraniano disse que se a ameaça de atacar pontes e usinas de energia for concretizada, “uma retaliação muito mais devastadora” será lançada contra a região -assumindo também o risco de cometer crimes de guerra.
No cardápio presumido para mísseis e drones estão, além da infraestrutura petrolífera dos países vizinhos, alvos como usinas de dessalinização vitais para o abastecimento de água no Oriente Médio e cidades israelenses.
O petróleo segue flutuando em patamar alto. Por Hormuz passam 20% da produção global do produto e do gás natural liquefeito. Embora o trânsito para navios de alguns países tenha sido autorizado por Teerã, no geral a via segue interditada.
Israel também voltou a fazer um ataque a instalações próximas do maior campo de gás do mundo -que Teerã divide com Doha no golfo Pérsico.
O alvo, segundo o ministro Israel Katz (Defesa), foram instalações de apoio a uma petroquímica, que ele diz ter sido poupada. No mês passado, uma ação israelense contra o campo de Pars Sul levou a uma retaliação iraniana c ontra o Qatar que quase saiu de controle.
Israel seguiu com ataques a alvos no Irã e no Líbano, país onde mira o grupo Hezbollah, que entrou na guerra ao lado dos aiatolás.
Na mão inversa, a retaliação iraniana deixou ao menos cinco feridos nesta segunda na região de Tel Aviv, centro econômico israelense. Em Haifa (norte), quatro corpos foram retirados de um prédio destruído no domingo.