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Irã lidera registros de mortes e desaparecimentos em rotas migratórias desde 2023

No acumulado histórico desde 2014, o Irã teve 5.786 casos nos trajetos do Afeganistão ao país e do Irã à Turquia

Redação Jornal de Brasília

06/04/2026 7h34

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Foto por HUSSEIN FALEH / AFP

GÉSSICA BRANDINO, GUSTAVO QUEIROLO E VITOR ANTONIO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

Desde 2023, o Irã é o país que concentra o maior número de registros de mortes e desaparecimentos em rotas migratórias. São 3.995 ocorrências no território iraniano até 16 de fevereiro –antes do início da guerra– o que representa 15% de todos os casos do mundo no período.

A reportagem analisou dados de mortes e desaparecimentos compilados pela OIM (Organização Internacional de Imigração) a partir de janeiro de 2014. No mundo, 75.921 migrantes tiveram o óbito confirmado ou sumiram no trajeto, segundo registros processados pela organização até 16 de março.

No acumulado histórico desde 2014, o Irã teve 5.786 casos nos trajetos do Afeganistão ao país e do Irã à Turquia. O país ultrapassou os Estados Unidos, que registraram 5.123 mortes ou desaparecimentos na fronteira com o México, mas ainda está distante da Líbia, com 20.786.

Esse número se deu principalmente graças à crise de refugiados causada pela guerra civil na Síria. A Líbia engloba a maior parte dos migrantes perdidos nas rotas do Mediterrâneo Central e pelo deserto do Saara.

As mortes e desaparecimentos de migrantes no Irã começam a crescer após a pandemia. Em 2022, o país teve mais episódios que os EUA e, desde 2023, também está à frente da Líbia. O pico na série histórica foi em 2024, com 1.508 ocorrências em solo iraniano.

Segundo porta-vozes da OIM, as rotas de chegada e saída do Irã são perigosas para imigrantes devido a uma combinação de riscos geográficos, ambientais e de proteção.

“Há condições ambientais extremas, especialmente em travessias montanhosas durante o inverno, trilhas longas e remotas com acesso limitado a serviços; violência e abuso; transporte perigoso e acidentes com veículos”, diz a organização.

O professor do departamento de relações Internacionais da PUC Minas e Autor do Livro ” O Oriente Médio: Velhos e Novos Conflitos”, Danny Zahreddine, atribui o aumento do fluxo migratório ao retorno do Talibã ao poder no Afeganistão e à saída dos EUA do país, combinada à degradação da situação econômica do próprio Irã.

“O Talibã endurece as regras sociais e culturais, restrições a bens, serviços, comida e trabalho. As mulheres vão se tornar cada vez mais marginalizadas e isso tem gerado nos últimos anos um fluxo cada vez maior de afegãos que deixam o país”, explica, acrescentando que esse cenário fez surgir no país criminosos que transportam migrantes de forma irregular e com desleixo à vida humana.

Sobre o fluxo do Irã para a Turquia, Zahreddine afirma que o movimento reflete a degradação econômica do Irã diante das sanções impostas pelos EUA, seca nos últimos dois anos, inflação e desemprego.

“A maior parte da migração que vai para a Turquia e também para para o Iraque vai em busca de uma oportunidade melhor de trabalho”, diz o professor, que coordena a Cátedra Sergio Vieira de Mello da PUC Minas.

Os dados da OIM mostram que a rota do Afeganistão já é a quinta com mais incidentes no mundo, com 5.311 registros na série histórica. A mais mortífera é a do Mediterrâneo Central, com 24,6 mil casos registrados na Líbia, Tunísia, Itália, Grécia, Egito, Malta e Argélia. Há 7.600 migrantes que morreram em rotas desconhecidas.

O pico de mortes e desaparecimentos no mundo foi registrado em 2024, com quase 9.000 casos. Em 2025, foram 7.550 registros, queda de 15% em relação ao ano anterior.

Para a OIM, essa diminuição reflete tanto um declínio real de pessoas nas rotas irregulares perigosas quanto atrasos na comunicação dos dados e diminuição da capacidade de documentação dessas tragédias diante dos cortes orçamentários das organizações durante o governo de Donald Trump.

“Restrições de financiamento e o aumento das limitações impostas aos atores humanitários que trabalham ao longo das principais rotas migratórias limitaram a capacidade de recolher e verificar dados de forma sistemática”, diz.

Em relação à guerra atual, a organização afirma que os movimentos de retorno de migrantes afegãos estão limitados por questões de segurança nos dois países, mas que há previsão de aumento do fluxo após os feriados religiosos no Irã neste mês, assim como diante da piora nas condições de vida no país.

“Os principais padrões de mobilidade observados atualmente são predominantemente internos, motivados tanto por deslocamento forçado quanto por realocação preventiva”, afirma a OIM.

A organização preside o Consórcio de Fronteira, coordenando a assistência de várias agências humanitárias. Nas fronteiras com o Irã, fornece assistência imediata a migrantes afegãos indocumentados vulneráveis, com ajuda financeira para transporte, refeições e cuidados de saúde.

METODOLOGIA

A reortagem analisou dados de mortes (quando o corpo foi localizado) e desaparecidos (pessoas que sumiram durante a rota migratória) compilados pela OIM. Os incidentes são classificados em uma escala de 1 a 5 com base nas fontes de informação. A reportagem descartou os incidentes classificados como nível 1 por serem baseados em apenas uma fonte de mídia, exceto em casos em que essa fonte estava relacionada à OIM ou ao Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados).

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