O Irã cumpriu sua promessa e iniciou hoje o processo de enriquecimento de urânio a 20% na usina nuclear de Natanz, em um desafio às potências do Ocidente, que ameaçaram impor sanções mais severas sobre a República Islâmica.
Segundo o porta-voz da organização iraniana de energia atômica, Ali Shirzadian, os trabalhos preliminares começaram às 9h30 locais (4h de Brasília) e o enriquecimento propriamente dito, apenas quatro horas depois.
De Viena, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) confirmou a presença em Natanz, localizada no centro do país, de seus inspetores.
“O enriquecimento começou nesta terça-feira em uma nova cascata de centrífugas, chamada S8, diferente da linha de produção usada (habitualmente) para outros enriquecimentos em Natanz”, explicou o negociador-chefe iraniano para assuntos nucleares, Ali Akbar Salehi.
Salehi insistiu em que se trata de uma decisão reversível e que a porta continua aberta para um acordo de troca de combustível nuclear com as grandes potências.
“O início do enriquecimento não significa o final da interação e da negociação com o organismo da ONU para chegar a um acordo de troca”, assegurou.
“A República Islâmica está pronta para prosseguir com a cooperação se a outra parte negociadora atuar com prudência e deixar de perder tempo”, acrescentou Salehi, citado pela televisão estatal em inglês.
No entanto, parece ser tarde para países como Estados Unidos, França e Reino Unido, que se declaram “cansados” da ambiguidade do Governo iraniano nos últimos meses.
Na segunda-feira, apenas 24 horas depois de o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, revelar que tinha dado a ordem de começar o enriquecimento, Washington e Paris pediram “enérgicas” sanções econômicas e políticas.
Os responsáveis de Defesa de ambos os Governos, o norte-americano Robert Gates e o francês Hervé Morin, expressaram sua frustração ao dizerem que “o Irã rechaçou tudo”.
Por isso, EUA e França preparam um documento para ser discutido no Conselho de Segurança e eventualmente aprovado no final de março.
Bloqueio de entidades bancárias iranianas, sanções à venda de gasolina ao Irã, congelamento de fundos e embargo a companhias iranianas, em particular as controladas pela poderosa Guarda Revolucionária, são algumas medidas punitivas em discussão.
O problema reside, no entanto, na necessidade de envolver a China no projeto, país que se mostra muito reticente devido aos interesses econômicos e energéticos que tem no Irã.
Analistas coincidem em apontar que, sem a anuência de Pequim, as medidas punitivas perderão grande parte de sua efetividade.
Quem parece ter deixado as hesitações de lado é a Rússia, país que disse hoje que a decisão do Irã de enriquecer urânio “gera dúvidas” sobre as intenções de seu esforço atômico.
“As ações que empreendeu, em particular o enriquecimento a 20%, despertam dúvidas em outros países. E parecem dúvidas fundadas”, afirmou o secretário do Conselho de Segurança russo, Nikolai Patrouchev, citado por agências russas.
As suspeitas são de que, segundo especialistas nucleares, o Irã possui a tecnologia para enriquecer urânio, mas não se sabe se pode utilizar o combustível, já que se desconhece se pode injetá-lo no reator.
Em novembro, França, Rússia e EUA ofereceram ao Irã enviar para o exterior seu urânio a 3,5% e recuperá-lo enriquecido a 20%, nas condições necessárias para manter seu reator civil em Teerã em operação.
O Irã, que diz aceitar a troca, exige que esta se realize em seu território e de forma gradual, condições que as outras nações não estão dispostas a aceitar.
Especialistas na região advertem que o endurecimento da queda-de-braço com as potências ocidentais tem, além disso, uma leitura interna relacionada com a crise política e social que divide o país desde as polêmicas eleições de junho passado.