Menu
Mundo

Identificação por DNA de vítimas de avalanche vira dor de cabeça no Nepal

Mais de 5 mil pessoas continuam desaparecidas após deslizamento na fronteira com a China

Redação Jornal de Brasília

06/10/2026 13h18

nepal disaster flood

Foto: PEDRO PARDO / AFP

Com uma foto na mão, Rajesh Ram deposita todas as esperanças nos exames de DNA, assim como milhares de famílias que não têm notícias de seus entes queridos desde a avalanche que devastou o Nepal no fim de agosto.

“Eu o procurei por todas as partes, mas não consegui encontrar seu corpo”, disse à AFP Ram, de 53 anos.

Seu filho Suroj Kumar, mecânico de oficina, morava em Betrawati, uma localidade que foi inundada quando um deslizamento de gelo e rochas na fronteira entre Nepal e China lançou toneladas de água e escombros como um tsunami.

A identificação das vítimas é uma tarefa hercúlea.

Segundo os especialistas, poderia levar semanas. É que há milhares de perfis de DNA para processar, restos fragmentados, além de capacidade técnica e mão de obra limitadas.

As autoridades nepalesas recuperaram 1.454 cadáveres, mas cerca de um terço deles é de restos parciais.

Foram identificados pouco mais de 100 corpos, que foram entregues para as famílias.

Há outras 5.285 pessoas desaparecidas no Nepal, entre elas centenas de estrangeiros.

Na China, o balanço é de 43 mortos e 519 desaparecidos, segundo a imprensa estatal, o que eleva o total para quase 1.500 mortos e 5.800 desaparecidos.

Nos dois laboratórios forenses nepaleses, ambos em Katmandu, os especialistas analisam amostras e criam uma base de dados em uma escala com a qual nunca tinham trabalhado antes.

“Em um ano, analisávamos entre 1.000 e 1.500 amostras, frequentemente em casos de paternidade ou em cenas de crime”, disse Mukul Pradhan, diretor científico do Laboratório Nacional de Ciências Forenses. “Agora, processamos milhares”, acrescentou.

– “Dor” –

São analisadas mediante exames de DNA um total de 3.685 amostras forenses.

As de sangue são mais fáceis, mas as tiradas de dentes e ossos podem demorar vários dias para serem processadas.

O Nepal enterrou mais de 1.200 corpos com número e etiqueta para poder recuperá-los caso seja encontrada uma correspondência de DNA.

“Um grande número de pessoas está desaparecida e os corpos que foram encontrados são difíceis de identificar”, comentou o porta-voz da polícia nepalesa, Abi Narayan Kafle. “Entendemos a dor das pessoas”, acrescentou.

Alguns corpos foram arrastados rio abaixo pelas águas, o que complica ainda mais o trabalho, explicou Nirajan Thapa, chefe da seção de biologia do Laboratório Nacional de Ciências Forenses.

“Em um terremoto ou um acidente, as vítimas são recuperadas em uma área concreta, por isso trabalhamos em um cenário fechado: o DNA do cadáver deve ser comparado com um número limitado de amostras”, explicou Thapa. “Mas agora essa escala se ampliou muito”, acrescentou.

O DNA por si só não permite identificar um cadáver sem uma amostra de referência de um familiar.

“Não basta extrair um perfil de DNA para identificar alguém”, destacou Thapa. “Temos que extrair um perfil de DNA de seus familiares e depois compará-los”.

Isto significa que as autoridades devem analisar amostras tanto dos restos não identificados quanto de milhares de familiares antes de poder estabelecer correspondências.

Thapa confia em poder iniciar em algumas semanas as comparações graças às equipes de apoio enviadas por vários países.

Mas até que os resultados cheguem, as famílias vivem na incerteza. Algumas optaram por celebrar funerais simbólicos para os desaparecidos.

Ram se pergunta se algum dia obterá respostas e encontrará “algum vestígio” de seu filho.

AFP

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado