A Human Rights Watch (HRW) divulgou seu relatório anual nesta quarta-feira (4), alertando para o aumento do autoritarismo e o retrocesso democrático em mais de 100 países. A organização aponta os Estados Unidos sob a presidência de Donald Trump, a Rússia e a China como principais responsáveis por essa tendência, que ameaça o sistema global de direitos humanos e a ordem internacional baseada em regras.
O documento critica duramente a administração Trump por devastar proteções aos direitos humanos, atacar o Estado de Direito e enfraquecer instituições multilaterais. Entre os abusos destacados estão a redução da responsabilização governamental, ataques à independência judicial, desrespeito a ordens judiciais, cortes em ajuda alimentar e subsídios de saúde, revogação de direitos das mulheres, obstrução ao acesso ao aborto, enfraquecimento de medidas de reparação por danos raciais, retirada de proteções a pessoas trans e intersexo, e erosão da privacidade. Além disso, Trump tem usado o poder do governo para intimidar adversários políticos, meios de comunicação, escritórios de advocacia, universidades, sociedade civil e até comediantes.
Na política externa, a HRW acusa a administração de adotar retórica alinhada à ideologia nacionalista branca, alegando riscos civilizacionais na Europa e retratando populações como indesejáveis nos EUA. Ações do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) incluem uso excessivo de força, prisões indevidas de cidadãos e mortes injustificadas. O relatório afirma que, na ‘nova desordem mundial de Trump’, o poder dita o que é certo e atrocidades não impedem acordos.
Trump subverteu os fundamentos da ordem internacional ao cancelar quase toda a ajuda externa dos EUA, incluindo financiamento para ajuda humanitária, e retirar o país de instituições como o Conselho de Direitos Humanos da ONU e o Acordo de Paris sobre o Clima. No caso da Ucrânia, os esforços de paz de Trump minimizaram a responsabilidade da Rússia por violações graves, repreendendo o presidente Volodymyr Zelensky e pressionando por concessões territoriais.
A Rússia e a China são apontadas por esforços persistentes para minar a ordem global. Com os EUA se afastando dos direitos humanos, países que poderiam liderar a defesa desses valores foram enfraquecidos por forças internas não liberais e pelo receio de antagonizar EUA e China.
O declínio democrático antecede a reeleição de Trump, com estudiosos chamando-o de ‘recessão democrática’. A democracia está nos níveis de 1985, e 72% da população mundial vive sob regimes autoritários. A Rússia e a China são menos livres hoje do que há 20 anos.
O diretor executivo da HRW, Philippe Bolopion, pede que democracias formem uma aliança estratégica para conter a onda autoritária, tornando-se uma força política e econômica poderosa para preservar a ordem internacional baseada em regras. Ele descreve isso como ‘o desafio de uma geração’.