Os hondurenhos vão no domingo às urnas com um presidente derrubado e um governante de fato, depois de cinco meses de crise após o golpe de Estado de 28 de junho que retirou Manuel Zelaya do poder.
O deposto Zelaya acompanhará as eleições gerais a partir da Embaixada do Brasil em Tegucigalpa, aonde chegou de surpresa em 21 de setembro, após quase três meses de exílio desde o golpe de Estado realizado pelos militares em 28 de junho, o mesmo dia em que expulsaram o presidente do país.
O governante de fato, Roberto Micheletti, ausentou-se do poder desde quarta-feira, mas sem renunciar ao cargo, segundo anunciou em mensagem ao país por rádio e televisão em 19 de novembro.
Micheletti disse então que deixaria o Governo para permitir um período “de reflexão” aos hondurenhos por ocasião das eleições gerais do domingo.
O processo eleitoral se desenvolveu em meio à crise política derivada do golpe de Estado, às ameaças de boicote da Frente Nacional de Resistência devido à deposição de Zelaya e à campanha a favor das eleições dos cinco candidatos presidenciais na disputa.
O candidato independente, Carlos Reyes, um reconhecido dirigente sindical de esquerda, renunciou a três semanas das eleições, porque Zelaya não foi restituído no poder.
O minoritário partido Unificação Democrática (UD, de esquerda), confirmou sua participação nas eleições até o último dia 21, em uma assembleia realizada em Tegucigalpa e na qual apoiou seu candidato César Ham.
As outras legendas que participam da disputa são o Partido Liberal de Honduras, no poder; o Partido Nacional de Honduras, principal força de oposição; e os minoritários Partido Democrata-Cristão de Honduras e Partido Inovação e Unidade/Social-Democrata.
Para muitos hondurenhos e estrangeiros, é inconcebível que os principais atores da crise política no país desde o golpe de Estado sejam todos do governante e conservador Partido Liberal de Honduras, começando por Zelaya.
Micheletti, assim como o atual presidente do Parlamento, José Alfredo Saavedra, também pertence ao Partido Liberal, que também inclui entre suas filas o procurador-geral do Estado, Luis Rubí, e o presidente da Corte Suprema de Justiça, Jorge Rivera.
No caso de Micheletti, que era presidente do Congresso Nacional quando Zelaya foi derrubado, ele foi designado com caráter interino no mesmo dia do golpe de Estado à frente do Executivo, através de uma resolução do Legislativo, que os deputados qualificaram como uma “sucessão constitucional”.
Um porta-voz do Tribunal Supremo Eleitoral (TSE) afirmou à Agência Efe que o censo eleitoral para o pleito de 29 de novembro é de cerca de 4,5 milhões de pessoas, das quais 1 milhão vivem fora do país, a maioria nos EUA, “com os quais que não se conta, porque não votam”.
Nesse sentido, acrescentou que os aptos a votar no país seriam cerca de 3,5 milhões de hondurenhos, dos quais um pouco menos de 20 mil poderão exercer o voto em seis cidades dos Estados Unidos: Washington, Los Angeles, Nova York, Houston, Miami e Nova Orleans.
Na opinião da mesma fonte, que pediu para não ser identificada, “se pelo menos 2 milhões de hondurenhos votarem, o processo será um sucesso, porque ao redor desse número foi às urnas nas eleições de 2005”, que deram a vitória a Zelaya.
Os candidatos favoritos são Porfirio Lobo, do Partido Nacional, e Elvin Santos, do Partido Liberal, ambos conservadores e pertencentes a duas instuições com mais de um século de história.
Lobo, perdedor diante de Zelaya em 2005, disputa a Presidência pela segunda vez, enquanto Santos era vice-presidente do deposto governante, mas renunciou em 2008 ao cargo para apresentar sua candidatura.
Qualquer candidato que vencer assumirá os destinos de um país órfão de reconhecimento internacional e suspenso como membro da Organização dos Estados Americanos (OEA) desde 4 de julho.
A comunidade internacional, que desde o golpe começou a exigir a restituição de Zelaya e anunciou que não reconhecia o regime de Micheletti, também antecipou que não reconhecerá a validade das eleições de domingo, com exceção de alguns países.
Um dos desafios para o próximo Governo de Honduras será a falta de apoio financeiro para uma nação com 7,8 milhões de habitantes que está entre as mais pobres do continente americano, junto com Bolívia, Haiti e Nicarágua.