Nova York, 25 – Quando os Estados Unidos se juntaram a Israel para atacar as instalações nucleares do Irã, a indignação e a condenação vieram da Rússia. O embaixador de Moscou na ONU disse que Washington estava abrindo “uma caixa de Pandora”, e o principal diplomata de Teerã correu ao Kremlin para buscar o apoio do presidente Vladimir Putin.
Mas em sua reunião com o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, na segunda-feira, Putin ofereceu apenas mais palavras de condenação aos ataques como “agressão não provocada” sem “base ou justificativa”.
Analistas dizem que a resposta moderada, sem qualquer ajuda militar aparente, deve decepcionar o Irã e reflete a influência diminuída da Rússia no Oriente Médio, onde já perdeu um aliado importante e busca um delicado equilíbrio diplomático.
Moscou poderia, em vez disso, obter alguns benefícios de curto prazo com a guerra entre Irã e Israel, como o aumento dos preços do petróleo para ajudar a economia russa em declínio ou desviar a atenção do mundo de sua guerra na Ucrânia, que já dura três anos.
Um aliado que precisa de ajuda
Os laços da Rússia com o Irã cresceram desde o início da invasão em grande escala da Ucrânia por Putin em 2022. Teerã forneceu a Moscou drones Shahed e a tecnologia para construí-los. Os drones têm sido uma arma fundamental na guerra.
O Kremlin elogiou a nova era das relações russo-iranianas em janeiro de 2025, quando Moscou e Teerã assinaram um acordo de parceria estratégica com o objetivo de fomentar laços econômicos, políticos e militares.
O momento foi significativo, diz Renad Mansour, pesquisador sênior do Programa do Oriente Médio e Norte da África da Chatham House. “A aproximação aconteceu depois de 2024, que foi um ano muito ruim para o Irã”, disse ele, tendo perdido aliados regionais em meio à derrubada de Bashar Assad na Síria e ao enfraquecimento do Hezbollah.
“O Irã queria contar com a Rússia”, disse ele. Mas, na prática, o acordo teve pouco significado desde os ataques de Israel ao Irã. Ele apenas proíbe a Rússia e o Irã de ajudar qualquer país que tenha atacado o outro, e não é um pacto de defesa mútua.
“Da perspectiva iraniana, houve alguma decepção com o quanto a Rússia está disposta a apoiar”, disse Mansour. “Eles estão sentindo agora que, ao enfrentar um gigante colossal como Israel e os EUA, a Rússia não vai querer intervir”.
O Kremlin se irritou com as sugestões de que abandonou ou negligenciou o Irã. O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, negou na terça-feira as alegações de que Moscou não teria dado apoio significativo a Teerã. Muitas pessoas querem “estragar a parceria entre Moscou e Teerã”, disse ele.
Israel destruiu a maior parte das defesas aéreas do Irã, e substituí-las não seria fácil, mesmo que a Rússia quisesse. O Irã precisa com urgência desses sistemas, disse Arman Mahmoudian, pesquisador do Instituto de Segurança Global e Nacional. “(Mas) a própria Rússia precisa dessas mesmas armas – tanto sistemas de defesa aérea quanto mísseis – para seu próprio esforço de guerra na Ucrânia”, disse ele. “A probabilidade de a Rússia atender às solicitações do Irã é mínima.”
Essa necessidade só se tornará mais premente se o Irã não conseguir fornecer drones de ataque à Rússia, cada vez mais usados pelas forças iranianas, o que deve deixar pouca margem para exportações, disse Mahmoudian. “Outro fator crítico é que Israel tem atacado extensivamente as instalações de produção de drones e mísseis do Irã. Mesmo que a guerra termine em breve, o Irã precisará de tempo para se recuperar e reconstruir esses locais”, acrescentou.
O equilíbrio de Moscou no Oriente Médio
As demandas iranianas não são as únicas que Moscou tenta equilibrar. A Rússia também quer manter boas relações com Israel As forças armadas de ambos os países atuam juntas na Síria e têm sido cuidadosas em manter contatos para evitar confrontos diretos. Israel permaneceu neutro durante a guerra na Ucrânia, cauteloso para não antagonizar com a Rússia por causa de sua grande população judaica.
Putin disse na sexta-feira, 20, em uma conferência em São Petersburgo, que Israel é o lar de quase 2 milhões de pessoas da Rússia e de outras ex-nações soviéticas, “um fator que sempre levamos em consideração”.
Moscou também está atenta ao seu relacionamento com Washington, uma proximidade retomada desde que o presidente Donald Trump voltou ao cargo este ano. As ligações telefônicas foram retomadas entre os líderes dos dois países pela primeira vez desde o começo da guerra na Ucrânia.
“Por enquanto, Trump não demonstra inclinação para endossar as novas sanções contra a Rússia propostas por uma maioria bipartidária no Senado dos EUA”, afirma Holger Schmieding, economista-chefe do banco Berenberg. “Mas se Putin irritar Trump de alguma forma significativa em relação ao Irã, Trump pode mudar de estratégia e impor novas sanções pesadas à Rússia.”
Novas complexidades e oportunidades para a Rússia
Embora a guerra entre Israel e o Irã tenha desencadeado novas complexidades para Moscou, ela também criou oportunidades. O confronto no Oriente Médio provavelmente distrairá a atenção e os recursos ocidentais da guerra na Ucrânia e tornará mais fácil para a Rússia perseguir seus objetivos no campo de batalha.
O aumento dos preços do petróleo também beneficiaria Moscou, que depende das exportações de combustível para impulsionar seu orçamento, permitindo ao Kremlin financiar a produção de armas, combater a inflação crescente e oferecer os bônus financeiros significativos que atraem os russos para o serviço militar.
Moscou também buscou, em várias ocasiões, posicionar-se como um potencial negociador na guerra entre o Irã e Israel, embora o próprio Putin tenha recuado desse papel depois de Trump rejeitar a ideia da mediação do Kremlin em meio à guerra na Ucrânia.
Ksenia Svetlova, ex-membro do parlamento de Israel nascida em Moscou e pesquisadora associada da Chatham House, afirma que “a Rússia não possui nenhum mecanismo de pressão ou influência sobre o Irã”. Ela observou que a guerra na Ucrânia esgotou seus recursos e que o fracasso em impedir a queda de Assad mostra que a influência de Moscou na região diminuiu. “Para ter sucesso como mediadores, seria necessário fazer com que os iranianos cedessem”, disse ela. Ainda não se sabe se a Rússia poderá aumentar sua influência no Oriente Médio.
“Mesmo que a República Islâmica sobreviva à guerra, a incapacidade ou falta de vontade da Rússia em ajudar seu aliado mais próximo no Oriente Médio inevitavelmente levantará dúvidas sobre a confiabilidade de Moscou”, disse Mahmoudian.
Estadão Conteúdo