DANIELA ARCANJO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
A captura do agora ditador deposto da Venezuela, Nicolás Maduro, na madrugada deste sábado (3), rendeu conteúdo para o núcleo mais vocal do gabinete de Donald Trump, que frequentemente usa canais oficiais do governo para publicações irônicas e provocativas desde que voltou à Presidência dos Estados Unidos, há um ano.
Nesse período, o perfil da Casa Branca já publicou, por exemplo, uma imagem do republicano vestido como papa, feita com inteligência artificial, e um vídeo de migrantes sendo deportados com foco no som das algemas e correntes, apresentado como um conteúdo relaxante.
A primeira publicação da última leva foi na noite de sábado, quando os perfis da residência oficial do presidente americano divulgaram uma foto em preto e branco de um Trump triunfante, aparentemente subindo uma escada, com a sigla “Fafo” na parte de baixo.
Trata-se de uma abreviação para “fuck around and find out”, algo como “vacilou, perdeu”, em linguagem chula no inglês. A sigla vem sendo usada principalmente pelo secretário de Defesa, Pete Hegseth, que a repetiu ao falar da operação que capturou Maduro. Em janeiro do ano passado, o próprio Trump já havia usado o acrônimo ao retaliar a Colômbia com tarifas após um desentendimento com o presidente Gustavo Petro.
Neste domingo (4), a Casa Branca voltou à carga ao publicar um vídeo no qual ironiza Maduro desafiando as autoridades americanas a irem capturá-lo em um discurso recente. “Venham me pegar!
Espero vocês aqui no Miraflores, não se atrasem. Covardes!”, afirma nas imagens o líder venezuelano, agora detido em Nova York para responder a acusações de crimes como narcoterrorismo, tráfico de drogas e porte ilegal de armas.
O vídeo, então, corta para uma fala do secretário de Estado americano, Marco Rubio. “Se você não sabia, agora sabe”, diz ele, ao som de um rap inserido na edição do material. Em seguida, aparece Trump sorridente, aparentemente saindo de um cômodo da Casa Branca por um corredor de militares, com uma pasta na mão.
A fala de Rubio ocorreu durante a entrevista coletiva de sábado sobre a operação. “Eu espero que agora as pessoas entendam que nós temos um presidente. O 47º presidente dos EUA não está brincando.
Quando ele diz que vai fazer algo, quando ele diz que vai resolver um problema, está falando sério, ele age”, afirmou o secretário. “Eu não entendo como ainda não chegaram a essa conclusão ainda. Se não sabiam, agora sabem.”
Trump é conhecido por fazer ameaças que não se concretizam. A sua primeira campanha, em 2016, foi marcada pela promessa de construir um muro em toda a fronteira entre EUA e México, que seria financiado pelo país vizinho, o que não ocorreu.
No atual mandato, o republicano já afirmou, por exemplo, que iria acabar com a Guerra da Ucrânia em 24 horas, retomar o Canal do Panamá, comprar a Groenlândia e anexar o Canadá.
A invasão da Venezuela foi ameaçada por meses, durante os quais os EUA bombardearam barcos no Oceano Pacífico e no mar do Caribe e interceptaram um navio petroleiro -agora, a gestão parece estar usando a captura como uma demonstração de força e um exemplo para outros adversários de Trump.
A retórica aparece em outros conteúdos nas redes oficiais do governo. O Departamento de Estado, por exemplo, publicou uma foto em preto e branco de Trump sentado em uma mesa com o semblante sério e entre Rubio, em pé e com os braços cruzados, e John Ratcliffe, diretor da CIA, a agência de inteligência americana, ao fundo.
“Don’t play games”, ou “não brinca”, lê-se em vermelho na parte inferior da imagem. “O presidente Trump é um homem de ação. Se você não sabia, agora sabe”, repete o departamento na legenda.
Durante a entrevista coletiva, Trump chamou a operação, com sua usual hipérbole, de uma das “demonstrações mais impressionantes, eficazes e poderosas do poderio e da competência militar americana na história dos EUA”.
Nas redes sociais, a Casa Branca comparou a imagem das Forças Armadas americanas com a projetada após a retirada das tropas dos EUA do Afeganistão sob o presidente democrata Joe Biden.
“Compare isso com o Afeganistão, quando éramos motivo de chacota no mundo inteiro. Nós não somos mais motivo de chacota. Nós temos o melhor Exército do mundo de longe. O profissionalismo e a coragem. Nós quase não conseguimos contê-los. Não poderia ter sido melhor”, diz outra publicação da Casa Branca.
Em agosto de 2021, os EUA encerraram uma ocupação de 20 anos do Afeganistão, o que fez o grupo fundamentalista Talibã voltar ao poder no país quase instantaneamente. O episódio foi imediatamente comparado com a queda de Saigon, que marcou a derrota final dos EUA na Guerra do Vietnã.
Apesar da crítica, no ano anterior à queda de Cabul, Trump havia assinado um acordo de paz com o Talibã sob a condição de o grupo negociar um governo de coalizão. A atitude estava alinhada com a promessa de desengajar os EUA do que o republicano chamava de guerras inúteis -postura diferente da que vem tomando em seu segundo mandato.
Desde sábado, Trump inundou seu perfil em sua plataforma, a Truth Social, de fotos que parecem mostrar ele e membros do seu gabinete, todos com rosto sério e ar apreensivo, assistindo ao momento do ataque. O republicano também publicou uma captura de tela de uma postagem da aliada Laura Loomer, uma ativista de extrema-direita.
“Não sei explicar, mas Trump me deixa tão empolgada por ser americano. Ele torna muito emocionante ser americano! Obrigada, presidente Trump. O melhor presidente que já tivemos”, afirmou ela em sua conta na rede social X.