Menu
Mundo

Governo Trump promove autoritarismo ao apoiar extremistas em eleições no mundo, diz Anne Applebaum

Esse é o diagnóstico feito pela jornalista e historiadora Anne Applebaum, vencedora do prêmio Pulitzer que escreveu diversos livros sobre o autoritarismo

Redação Jornal de Brasília

03/04/2026 7h16

Foto: BRENDAN SMIALOWSKI / AFP

Foto: BRENDAN SMIALOWSKI / AFP

PATRÍCIA CAMPOS MELLO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

A ofensiva do governo Trump para influenciar eleições ao redor do mundo, inclusive no Brasil, não tem precedentes na história do país.


Esse é o diagnóstico feito pela jornalista e historiadora Anne Applebaum, vencedora do prêmio Pulitzer que escreveu diversos livros sobre o autoritarismo. “O governo Trump está fazendo algo realmente diferente: não apenas apoiar abertamente candidatos, mas também usar ferramentas diplomáticas e econômicas para moldar eleições”, disse Applebaum à reportagem.


PERGUNTA – A política externa do governo Trump é fundamentalmente diferente das ações de governos americanos para influenciar eleições em outros países?


AA – É muito anormal um governo americano apoiar abertamente candidatos em democracias. Às vezes havia simpatia partidária, mas não víamos um presidente americano declarando apoio a um candidato em uma eleição alemã ou húngara. Eles manifestavam apoio a princípios como eleições livres e democracia. Deixávamos as eleições de outros povos em paz, não intervínhamos abertamente.


O governo Trump está fazendo algo realmente sem precedentes: não apenas apoiar abertamente candidatos, mas também usar ferramentas diplomáticas e econômicas para moldar eleições. Por exemplo, o resgate financeiro para a Argentina, as sanções contra juízes no Brasil, enviar [o secretário de Estado, Marco] Rubio a Budapeste para apoiar Viktor Orbán.


E os tipos de candidatos sendo apoiados são diferentes. O governo Trump está endossando candidatos que se alinham com sua visão de civilização cristã, de ideologia de extrema direita, e oposição ao que eles chamam de ideologia de gênero. Estão se alinhando com partidos antidemocráticos. O governo americano está promovendo o autoritarismo, uma visão retrógrada da política e da sociedade. Não há comparação com nenhum movimento político americano do pós-guerra.


P – Até que ponto os EUA estão usando o ecossistema de informação para exercer pressão sobre eleições? Há evidências de parcerias com as plataformas de tecnologia para esse fim?


AA – As plataformas de tecnologia estão alinhadas com a as visões do governo americano. A mais óbvia é o Twitter. O algoritmo do X foi alterado para favorecer a extrema direita. Também foi eliminada grande parte da moderação de conteúdo que existia antes. Um dos efeitos foi a inundação da plataforma com mensagens racistas, misóginas, raivosas e repugnantes. As plataformas de modo geral fizeram movimentos que tornaram o mundo online mais raivoso e mais divisivo, algo que ajuda os partidos mais extremistas.


P – A senhora já mencionou que existem três alas do movimento Maga (sigla em inglês para “faça a América grandiosa novamente”) influenciando ou tentando influenciar a política externa americana.


AA – Há um grupo que você poderia chamar de autoritários tecnológicos. São Peter Thiel, Elon Musk, David Sacks e outros que não acreditam na democracia. Eles querem garantir que não serão regulados, seja na Europa ou no Brasil. Eles têm crenças elitistas de que são mais inteligentes que as pessoas comuns e deveriam governar, querem promover seus interesses ao redor do mundo. Então procuram partidos políticos e movimentos com ideias semelhantes. Na Europa, estão interessados em partidos antieuropeus, que enfraquecem a União Europeia e sua capacidade de regular.


Um segundo grupo reúne nacionalistas cristãos. Eles acreditam que os EUA não deveriam ser um Estado laico. Querem se alinhar com outros movimentos cristãos do mundo. E há também uma parte mais abertamente racista da coalizão, que está interessada em supremacia branca, em garantir que os países europeus permaneçam etnicamente europeus. Eles estão focados em países europeus, mas também na América Latina: Brasil, Argentina e El Salvador. O interesse principal deles é combater a imigração, recriar uma espécie de civilização cristã branca.


P – A senhora já afirmou não acreditar que Trump esteja realmente interessado nesse tipo de política externa.


AA – Trump não pensa nem ideologicamente nem estrategicamente. Ele pensa no que é bom para ele e se ele está ganhando. Quando ele está no Salão Oval com um líder estrangeiro, ele precisa ser visto como dominante naquela conversa. Quando está discutindo uma questão política, tem que distorcê-la para que ele esteja ganhando. E ele gosta de ser visto com outros vencedores.


Há dois exemplos disso. O democrata Zohran Mamdani, prefeito de Nova York, vem da esquerda progressista, bem distante de Trump politicamente. O movimento Maga era muito contrário. Para eles, Mamdani é um problema racial e religioso. E, mesmo assim, quando o encontrou, Trump decidiu: eu gosto desse jovem. Ele acabou de ganhar uma eleição importante por ampla margem. E decidiu apoiá-lo.


Outro exemplo é Lula. Todas as pessoas do entorno de Trump queriam que ele permanecesse alinhado a [Jair] Bolsonaro, mesmo depois que ele perdeu a eleição. Mas Bolsonaro estava fora do poder e estava preso, e Lula era cativante e eles conseguiram conversar. Trump gostou disso. E então essa foi uma decisão completamente não ideológica, baseada apenas na intuição dele.


P – A oposição contra Trump foi muito contida nos últimos meses. Com a guerra no Irã, a senhora enxerga uma oposição efetiva a Trump?


AA – Nunca tivemos um Congresso tão subserviente. O que tornou este governo Trump diferente de todos os governos anteriores é que não há oposição congressual ao presidente. Isso não é culpa dos democratas, é culpa dos republicanos. Os democratas têm sido bastante vocais o tempo todo.


Eles não têm nenhum poder, ganharam inúmeras eleições que não se esperaria que ganhassem. Os governos de Nova Jersey e Virgínia são as duas maiores. Houve também eleições locais em que eles venceram em distritos que votaram em Trump. Isso é um sinal. Partindo do pressuposto de que as eleições de meio de mandato serão conduzidas de forma justa, e não podemos excluir que haja interferência, parece que os democratas vão se sair bem.


Os protestos também são um sinal. As três maiores manifestações da história americana foram as três últimas marchas “No kings” [sem reis]. Protesto não ganha a eleição. Mas eu sei por experiência na Polônia que as manifestações dão às pessoas a energia de que às vezes elas precisam.


P – Quão preocupada a senhora está com a possibilidade de Trump interferir nas eleições de meio de mandato?


AA – Estou preocupada porque aprendemos em 6 de janeiro de 2021 que ele está disposto a intervir em eleições e não tem nenhum problema moral em fazer isso. Se ele puder interferir, ele vai. E ele está cercado por outras pessoas que também gostariam de fazer isso.


Há muitas coisas que eles podem fazer: aumentar as exigências para dificultar o voto, especialmente entre certos eleitorados, e expurgar nomes das pessoas dos cadastros eleitorais. E alguns temem que Trump use o fato de os EUA estarem em guerra para decretar estado de emergência e cancelar as eleições. Conforme nos aproximamos da eleição, acho que eles vão tentar várias coisas. Não necessariamente terão sucesso.


Uma das vantagens dos EUA, que às vezes parece uma desvantagem, é que há 50 sistemas eleitorais diferentes [um em cada estado]. Não há um sistema central único. Você teria que mudar 50 instituições. Isso é muito difícil. Mas talvez eles possam mudar algumas delas. E isso pode ser suficiente.


RAIO-X | ANNE APPLEBAUM, 61


Graduou-se em História e Literatura na Universidade Yale e tem mestrado em relações internacionais pela London School of Economics. Ela é jornalista da revista The Atlantic e autora de diversos livros sobre comunismo e autoritarismo e venceu o prêmio Pulitzer com “Gulag: Uma História dos Campos de Prisioneiros Soviéticos”.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado