O Executivo provisório é integrado por aliados próximos do general, o que para a ex-primeira-ministra Benazir Bhutto, líder do opositor Partido Popular do Paquistão (PPP), torna “impossível” que as eleições legislativas previstas para a primeira semana de janeiro sejam “limpas e livres”.
Em sua primeira entrevista coletiva depois de ser retirada a ordem de prisão domiciliar contra ela, Bhutto denunciou que o novo gabinete é “uma extensão” do Governo anterior, e pediu novamente a Musharraf que renuncie a seu duplo cargo de presidente e chefe do Exército.
Musharraf, no entanto, afirmou que “o Paquistão nunca passou por uma transição de governo tão tranqüila e harmoniosa” como a atual.
“Apesar de ser um militar (em referência a seu cargo de chefe do Exército), introduzi a essência da democracia no Paquistão”, disse o general, que chegou ao poder através de um sangrento golpe de Estado em 1999.
Em discurso após a cerimônia de posse do governo, Musharraf disse que o Paquistão está “no caminho para a democracia” e afirmou que todas as suas medidas são tomadas “pelo interesse do país”.
O novo governo provisório é liderado pelo atual presidente do Senado, Mohammedmian Soomro, em substituição de Shaukat Aziz, que deixou o posto de primeiro-ministro na noite de quinta-feira ao encerrar oficialmente a legislatura.
Soomro, do partido governante Liga Muçulmana do Paquistão-Q (LMP-Q), foi um dos candidatos apresentados pela legenda às eleições presidenciais de 6 de outubro, mas com isso pretendia apenas “cobrir” Musharraf caso o Supremo o impedisse de concorrer. Com a liberação da candidatura do general, Soomro se retirou do pleito e apoiou publicamente Musharraf.
O fato de que tanto Soomro quanto os demais ministros tenham saído das fileiras de apoio ao general impede, segundo Bhutto, que as próximas eleições legislativas sejam neutras. Para a ex-governante, Musharraf deve renunciar e abrir caminho para um Governo neutro que se encarregará do pleito, para que todos os partidos concorram em igualdade de condições.
O líder do PPP afirmou ainda que seguirá adiante com a campanha de protestos contra o estado de exceção e reiterou sua chamada a todos os partidos da oposição a se unir para enfrentar Musharraf.
Detalhou que já manteve contatos com vários líderes políticos, incluído o ex-primeiro-ministro exilado Nawaz Sharif, líder da Liga Muçulmana do Paquistão-N (LMP-N), que afirmou na quinta-feira na Arábia Saudita que estava disposto a trabalhar com Bhutto “para iniciar uma luta conjunta contra o ditador”.
A suspensão da prisão domiciliar da ex-primeira-ministra aconteceu às vésperas da chegada ao Paquistão do “número dois” do Departamento de Estado americano, John Negroponte, que deve pressionar Musharraf para restaurar a Constituição.
O general decretou o estado de exceção em 3 de novembro, apoiando-se no aumento da violência extremista e da ingerência da judicatura superior na política do governo. A nova ordem foi decretada poucos dias antes da data em que a Corte Suprema deveria se pronunciar sobre a validade da recente reeleição de Musharraf como presidente.