PATRÍCIA CAMPOS MELLO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Para o governo brasileiro, o cenário de potencial mudança de regime que se desenha no Irã após a morte do aiatolá Ali Khamenei se assemelha mais ao do Iraque do que o da Venezuela.
Na avaliação de funcionários do Planalto e do Itamaraty, é baixa a possibilidade de uma transição tranquila como está se dando em Caracas após os Estados Unidos capturarem o ditador Nicolás Maduro no início do ano.
A chance de instalar no poder alguém de dentro do regime iraniano que possa ser influenciado pelos EUA, que mantenha o canal de Horrmuz desimpedido e que abra o setor de petróleo e gás para empresas americanas é vista como remota –na Venezuela, a líder interina Delcy Rodríguez tem colaborado com Washington e foi até elogiada por Donald Trump, embora afirme que nenhum agente externo lhe dá ordens.
A análise no governo brasileiro é que há maior probabilidade de uma situação de caos social e guerra civil como a que se seguiu à invasão dos Estados Unidos no Iraque em 2003.
No Irã, o grupo que está no poder, entre lideranças religiosas e da Guarda Revolucionária, é muito mais ideológico e hostil aos americanos e israelenses do que a Venezuela. Segundo esse raciocínio, seria muito mais difícil achar alguém como Delcy Rodriguez, a vice-presidente venezuelana que assumiu o poder como presidente interina após a captura de Maduro e vem seguindo as demandas americanas, principalmente em relação à exportação e exploração de petróleo e compra de produtos americanos.
Na visão de um funcionário do governo brasileiro, a intervenção americana e israelense ainda vai causar grande destruição no país, uma vez que várias lideranças do regime teocrático ainda podem ser alvejadas. O processo de sucessão de Khamenei e substituição das lideranças mortas está em curso, mas a aposta é que EUA e Israel também tentarão matar os líderes escolhidos.
Neste domingo (1º), houve uma intensificação nos bombardeios contra Teerã e foram atingidas várias estruturas das Forças Armadas, da Guarda Revolucionária, além de setores como inteligência, TV estatal e complexos residenciais de militares.
Nas palavras de uma autoridade brasileira que acompanha a situação, Washington e Tel Aviv estão eliminando as lideranças da Guarda Revolucionária, que é o centro do poder político, econômico e militar do regime. Sobrariam 300 mil homens armados, sem liderança -o quem, nas palavras dessa autoridade, seria um ingrediente para o caos, como no Iraque.
Também é visto como improvável que a população iraniana consiga tomar o poder, como sugere Trump em seus pronunciamentos. Embora parte dos iranianos mantenha certo otimismo com possíveis mudanças, após anos de repressão e crise econômica, não há uma oposição organizada.
O governo brasileiro vê com ceticismo a ideia de mudança de regime só com bombardeios aéreos, sem soldados no terreno -Trump já afirmou que não pretende enviar tropas.
A população dentro do país recebe informações escassas, uma vez que a internet foi bloqueada e até os acessos por meio de Starlink estão com instabilidade, segundo pessoas contatadas pela Folha dentro do país.
Em Teerã, vivem atualmente cem cidadãos brasileiros, e outros cem no resto do país. A maioria são mulheres que se casaram com iranianos.