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Mundo

Governo afegão assume novo mandato sob forte questionamento de parceiros

Arquivo Geral

16/12/2009 0h00

Com a insurgência talibã mais forte que nunca, o presidente Hamid Karzai renovou seu mandato à frente do Afeganistão sob denúncias de fraude e a retirada da disputa do principal opositor, o que gerou um forte questionamento de seus parceiros internacionais.


Em 2009, os talibãs conquistaram uma presença “intensa” em 80% do território afegão, segundo dados do Conselho Internacional de Segurança e Desenvolvimento (Icos).


Com quase 500 soldados estrangeiros mortos em 2009, a campanha deste ano no Afeganistão foi a mais sangrenta desde a queda do regime talibã, após a invasão americana em outubro de 2001.


Os talibãs não só mantiveram intacta sua capacidade para colocar artefatos e perpetrar ataques esporádicos, mas estreitaram seu cerco sobre Cabul com assaltos, atentados suicidas e lançamentos de projéteis contra edifícios emblemáticos.


Os insurgentes coordenaram em fevereiro um ataque contra três prédios governamentais da capital, em agosto atentaram contra o quartel-general da Força Internacional de Assistência à Segurança (Isaf) e, em outubro, contra a Embaixada indiana e uma residência da ONU.


Em seu discurso de posse, em 19 de novembro, Karzai garantiu que nos próximos cinco anos de mandato conseguirá que os soldados e policiais afegãs assumam o controle da segurança além de Cabul, em todas as províncias afegãs.


O presidente enviou a mensagem que seus parceiros internacionais queriam ouvir: um compromisso contra a corrupção que mina seu Governo e um calendário viável para a redução do papel das forças internacionais no Afeganistão.


Karzai, instalado no poder em 2001 com o apoio dos EUA, percebeu este ano um forte aumento da pressão imposta por seu principal parceiro com a chegada ao poder em Washington de Barack Obama.


Obama voltou a priorizar o conflito afegão com o envio de 21 mil soldados de reforço no primeiro trimestre de 2009, mas, no fim do ano, os EUA constataram que ainda serão necessárias muitas outras tropas para combater uma insurgência fortalecida.


Antes de tomar uma decisão sobre a nova estratégia para o Afeganistão, Washington exigiu trabalhar com um “parceiro confiável” à frente do Governo afegão, enquanto tanto a ONU como os observadores da União Europeia (UE) e o candidato opositor Abdullah Abdullah denunciavam fraude no pleito.


O primeiro turno de 20 de agosto deu a Karzai a maioria absoluta, mas, dois meses depois, a Comissão Eleitoral aceitou as queixas de fraude e invalidou centenas de milhares de votos, o que reduziu a 49,67% o apoio ao presidente e forçou a convocação de um segundo turno eleitoral.


Mas Abdullah desistiu da disputa, prevista para 7 de novembro, denunciando que a maquinaria da fraude continuava intacta, enquanto a comunidade internacional reconhecia a vitória de Karzai.


Na campanha para o segundo turno, os talibãs cumpriram de novo sua ameaça de boicote violento com um ataque terrorista a uma casa de hóspedes onde se alojavam funcionários da ONU – cinco deles morreram – em uma das áreas mais protegidas de Cabul.


A ONU, que ajudava a Comissão Eleitoral afegã a organizar o pleito, anunciou pouco depois a retirada parcial de seus funcionários estrangeiros e o reforço da segurança para os que permanecessem no Afeganistão.


No país, estão desdobrados cerca de 100 mil militares estrangeiros – sendo aproximadamente 68 mil dos EUA -, mas a maioria deles se concentra em regiões urbanas e centros de comunicação, por isso os insurgentes contam com refúgios nas áreas mais isoladas.


Karzai reiterou em sua posse a oferta de diálogo feita aos talibãs que queiram “retornar para casa” e acatar a Constituição, e pediu que a Arábia Saudita continue facilitando os contatos “secretos” com insurgentes que aconteceram este ano.


O líder talibã afegão, o mulá Omar, aproveitou a festividade muçulmana do Eid al-Adha para enviar no fim de novembro uma mensagem ao povo afegão, na qual rejeitava qualquer tipo de diálogo tanto com o Governo como com as potências estrangeiras até que suas tropas abandonem o país.


O mulá advertiu de que os EUA “querem que os mujahedins se rendam sob o pretexto da negociação”, enquanto a imprensa do Paquistão afirmava que Washington abriu um canal de diálogo com os talibãs através dos serviços secretos sauditas e paquistaneses.

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