IGOR GIELOW
FOLHAPRESS
A ofensiva das forças do governo reconhecido internacionalmente do Iêmen, apoiadas por pesados ataques aéreos da Arábia Saudita, chegou nesta segunda-feira (5) a pontos estratégicos para retomar o controle do estreito que liga o sul do mar Vermelho ao oceano Índico.
Os rebeldes pró-Irã houthis, que haviam tomado quase toda a costa no mês passado, negaram ter perdido controle de pontos como Dhubab, principal porto mirando as águas do estreito de Bab el-Mandeb, como o governo expulso por eles da capital em 2014 disse.
Ambos os lados concordam apenas em que os combates seguem no sudoeste iemenita, e são intensos. O contra-ataque veio no domingo (4) após uma série de reveses para os sauditas, incluindo a interrupção de seu principal oleoduto driblando o fechamento do estreito de Hormuz, do outro lado da Península Arábica, pelo impasse entre Irã e Estados Unidos.
Além disso, ataques com mísseis e drones dos houthis se tornaram uma constante no reino desértico, incluindo contra a capital, Riad. No domingo, uma unidade de bombeamento do oleodutos Leste-Oeste foi alvejada, mas o fluxo na via não foi afetado, segundo a estatal Aramco.
Agora, a intensidade dos bombardeios sauditas chegou também a Sanaa, centro do governo rebelde. Houve ataques aéreos a bairros da cidade, e o governo diz que está marchando por três frentes contra a capital.
Já mais ao sul, perto de Taiz, são os houthis que avançam segundo os relatos disponíveis, visando a tomada de regiões montanhosas vitais para o fluxo de suprimentos militares do governo.
A fluidez no campo de batalha não se via desde 2022, quando a guerra civil no país foi congelada em linhas estáveis, com os houthis dominando o leste iemenita. Outro grupo rebelde rival controlava o sul da nação, mas neste ano o governo o subjugou, estabelecendo-se no importante porto de Áden.
O rápido avanço dos houthis no mês passado ocorreu após um bloqueio aéreo sobre Sanaa ser imposto em julho, reabrindo os combates.
Até então, os rebeldes participavam do conflito no Oriente Médio apoiando o Irã com ataques a Israel, mas não haviam agido no mar Vermelho como fizeram no período de 2023 a 2025, quando lutaram ao lado dos terroristas do Hamas contra o Estado judeu na esteira do 7 de Outubro.
Desde julho, anunciaram um bloqueio naval ao porto saudita de Yanbu, no mar Vermelho, mas com menor eficácia do que a ação do Irã em Hormuz. A crise, contudo, foi suficiente para elevar ainda mais o preço do barril do petróleo.
Com as ofensivas do mês passado, os houthis controlaram rapidamente a costa do país no mar Vermelho, objeto agora de nova disputa.
Para o Irã, o movimento é útil por dar mais uma ficha de barganha contra os americanos no conflito iniciado por Donald Trump em fevereiro, mas a agenda houthi é própria: eles querem controlar o país, e temem o esvaziamento do apoio iraniano em caso de paz com os EUA.
Em um sinal que pode evidenciar fraqueza na sua posição militar, os houthis anunciaram nesta segunda que consideram o espaço aéreo da Arábia Saudita um teatro de operações, o que significa ameaça direta para qualquer voo comercial que passe por lá.
Se cumprida, a ameaça tem implicações para as empresas aéreas do Golfo Pérsico, como a Emirates, que usa território saudita em muitas de suas rotas internacionais, como o voo diário que liga São Paulo a Dubai, que de todo modo passa bem mais ao norte da região em conflito.
Há também uma crise humanitária em curso, com mais de 180 mil iemenitas deixando suas casas nas regiões de combate mais intenso.
Forças do Iêmen chegam a estreito disputado com os houthis
Ambos os lados concordam apenas em que os combates seguem no sudoeste iemenita, e são intensos
Apoiadores houthis do Iêmen. Foto: Mohammed Huwais/AFP