GABRIEL GAMA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Organizações filantrópicas vão bancar a participação de cientistas americanos no IPCC, o Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudança Climática, após o presidente Donald Trump ordenar a saída dos Estados Unidos da entidade.
Especialistas de todos os continentes são nomeados para elaborar relatórios com alguns anos de intervalo. Em vez de produzir ciência, o painel avalia as evidências já disponíveis e extrai conclusões a partir delas. É a maior autoridade científica sobre o aquecimento global.
A Aliança Acadêmica dos EUA para o IPCC, criada em março de 2025, afirma que cobrirá os custos de transporte e estadia de 64 pesquisadores durante todas as reuniões presenciais para a elaboração do sétimo relatório do órgão. O documento deve ser publicado até 2029, em diversos volumes.
“O dinheiro para a viagem dos autores virá de filantropias, não de universidades”, diz Pamela McElwee, presidente do comitê gestor da Aliança e professora da Universidade Rutgers, em Nova Jersey. A especialista, que é autora do painel científico e será contemplada com as doações, não informou as organizações ou os valores envolvidos na campanha de arrecadação.
Janice Lachance, diretora-executiva da União Geofísica Americana (AGU, na sigla em inglês), que sedia a Aliança, confirmou os repasses. “Através do apoio generoso de várias organizações filantrópicas, a AGU vai oferecer financiamento para despesas de viagem a autores e especialistas baseados nos EUA que são convidados para reuniões oficiais do IPCC”, afirmou.
As doações ajudam a aliviar preocupações sobre o envolvimento de cientistas americanos no painel, já que pesquisadores de nações desenvolvidas dependem exclusivamente de recursos dos governos e das organizações que os indicam. Com a retirada do governo Trump, havia o receio de que universidades deixassem de financiar a participação de especialistas, por medo de represálias.
Porém, os repasses não devem resolver outro problema deixado pela saída dos EUA: o risco de falta de verba para avaliar pesquisas sobre o corte das emissões de gases do efeito estufa.
Os Estados Unidos e a Malásia são copresidentes do Grupo de Trabalho 3, o conjunto científico do IPCC voltado para a mitigação da mudança climática. A Casa Branca deveria financiar uma unidade técnica que embasa as análises de dados para os relatórios -com os americanos fora de jogo, o futuro financeiro dessa estrutura está em xeque.
A cientista Katherine Calvin, nomeada pelo governo Joe Biden para a copresidência do grupo e demitida da Nasa (a agência espacial dos EUA) no início do novo mandato de Trump, tampouco deve ser contemplada com a verba filantrópica. Não está claro se ela continuará na posição.
“Nós esperamos que haja recursos para eles, mas realmente não sabemos”, diz McElwee. Ela afirma que a Aliança Acadêmica poderá planejar outra campanha de arrecadação para contemplar a unidade técnica -porém, não há nada previsto no momento.
O IPCC negou um pedido de entrevista com Calvin e não respondeu sobre a situação financeira da unidade técnica.
Outro receio é com relação aos pesquisadores nomeados por agências federais dos EUA, que provavelmente deixarão de receber financiamento.
“Esta é uma das nossas maiores preocupações. Muitos cientistas federais estão profundamente comprometidos com o IPCC e desejam continuar contribuindo, mas a participação é regida pelas políticas das agências”, diz Lachance.
A Aliança Acadêmica é formada por dez instituições dos EUA que podem nomear pesquisadores para elaborar os relatórios científicos, por estarem registradas como observadoras no painel. A lista de membros inclui as universidades Yale, Princeton e da Califórnia.
Juntas e sem intermédio do governo Trump, essas entidades indicaram 282 cientistas americanos para o próximo ciclo, dos quais 64 foram selecionados.
McElwee diz que a Aliança foi criada considerando a possibilidade de retirada dos Estados Unidos. “Nós basicamente antecipamos que essa saída ia acontecer e começamos a ficar preocupados com o engajamento dos EUA em fevereiro de 2025”, afirma. Na época, a Casa Branca havia impedido a participação de pesquisadores em uma reunião do IPCC na China.
“Tínhamos esperança de que o governo federal ainda nomearia cientistas e de que as nossas nomeações não seriam necessárias. Mas o governo indicou zero pessoas. Foi a primeira vez em que nenhum cientista foi indicado pelo governo”, destaca a pesquisadora.
Enviados da Casa Branca continuaram envolvidos nas plenárias do IPCC durante o primeiro mandato de Trump, exercendo o papel de validar os relatórios em nome do país. Agora, essa representação deixará de existir.
“Os EUA eram sempre um grupo construtivo tentando firmar compromissos, talvez não tão rápido como outras nações gostariam, mas eram negociadores de boa-fé”, diz McElwee. “Alguns faziam isso há 20 anos e eram cientistas climáticos de alto nível que trabalhavam em agências federais, com conhecimento e experiência que não serão substituídos facilmente.”