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Mundo

Favela no coração de Buenos Aires se salva da escavadeira

Arquivo Geral

23/12/2009 0h00

No coração de Buenos Aires, em terrenos cobiçados pelos especuladores imobiliários, mais de 30 mil pessoas que vivem amontoadas na Villa 31 respiram aliviadas pela aprovação de uma lei que transformará a comunidade em um bairro, após décadas de luta.

Perto da Recoleta, um dos bairros mais luxuosos de Buenos Aires, entre a ferrovia e o porto, e sob uma das principais vias da cidade, foram construídos milhares de barracos, muitos dos quais correm o risco de desabar.

A Villa 31 nasceu nos anos 40 como resultado do processo de industrialização e esteve a ponto de desaparecer durante a última ditadura militar (1976-1983), mas as sucessivas crises econômicas e a crescente emigração a transformaram em um dos maiores assentamentos marginais da cidade.

Durante todos estes anos, os moradores da Villa 31 viveram com o medo das escavadeiras. O triunfo do conservador Mauricio Macri como prefeito da cidade em 2007 disparou o alarme, porque seu programa eleitoral incluía o desaparecimento da vila, assentada em terrenos do Governo nacional.

No entanto, a pressão dos moradores e o trabalho de um grupo de arquitetos da Universidade de Buenos Aires se traduziu na aprovação de uma lei que salvará “La 31” da destruição pelas mãos de um projeto inspirado no Programa Favela-Bairro, implamentado no Rio de Janeiro.

“O modelo toma como exemplo muitos programas, como o Favela-Bairro do Brasil e o de Medellín (Colômbia), onde não se trabalha com o conceito de moradia, mas com o de cidade”, explica a Efe Javier Fernández Castro, arquiteto e líder comunitário da Villa 31.

A lei, acrescenta, constitui “um precedente muito importante” e oferece uma resposta à “longa luta dos moradores do bairro por reconhecer a possibilidade de urbanização”.

A normativa permite o financiamento de infraestruturas e saneamento público, construção de casas em substituição aos barracos em perigo de derrubada e possibilitará a integração da comunidade ao resto da cidade.

Apesar do avanço, o arquiteto reconhece que serão necessários mais de cinco anos para mudar a fisionomia da vila e um investimento de centenas de milhares de dólares.

Segundo especialistas, 70% das casas da vila são recuperáveis, enquanto os 30 % restantes apresentam riscos ou devem ser demolidas.

Mas a aprovação da lei não teria sido possível sem o trabalho desenvolvido por associações de moradores para financiar uma verba mínima à estrutura da Villa 31, desde a abertura de espaços públicos à criação de escolas, restaurantes populares e atividades coletivas.

No entanto, ainda há muito a fazer, especialmente para combater a superpopulação, a insegurança e o tráfico de drogas, como reconhece o dirigente cooperativista Jesús Raúl Guzmán.

“A solução para as comunidades é ter uma política de Estado para o problema habitacional”, assegura. A saída, em sua opinião, inclui facilitar créditos aos moradores e impulsionar sua inserção pacífica na sociedade.

Norma Gutiérrez, presidente da Associação de Moradores da Villa 31, ressalta que os maiores problemas são a superpopulação e a marginalização.

“Cada vez é maior o número de novos moradores. Não temos espaço e eles acabam construindo para cima”, aponta Gutiérrez. “Quando você diz que mora na comunidade, não consegue emprego por mais que tenha estudos. Isto faz com que a marginalização seja terrível”.

A pior situação é vivida na chamada 31 Bis, uma aglomeração que cresceu nos últimos anos de forma anárquica e onde se concentram os maiores índices de violência e tráfico de drogas.

Nem sequer os líderes comunitários ultrapassam a fronteira imaginária da 31 Bis, onde os barracos estão separados por becos sem luz e em sua maioria sem saneamento básico.

Para combater fenômenos como este e impulsionar a integração dos jovens surgiu, há dez anos, a rádio da Villa 31 “El Milenio Continua”, dirigida por Juan Romero, que envolveu mais de 100 adolescentes no projeto.

Na rádio foram formados 31 locutores e pelos seus microfones passaram futuros advogados, arquitetos e inclusive policiais, “sonhos inalcançáveis que foram conseguidos por pivetes da comunidade”, afirma Romero, disposto a seguir trabalhando por estes sonhos.

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