A reconciliação entre os dois grandes partidos da Palestina, o nacionalista Fatah e o islamita Hamas, parece cada vez mais próxima e pode ser alcançada nesta quinta-feira (24) com as negociações no Cairo entre seus respectivos dirigentes, Mahmoud Abbas e Khaled Meshaal.
Os observadores palestinos consultados pela Agência Efe acreditam que o encontro será realizado nas circunstâncias mais legítimas até o momento para dar um impulso à reconciliação após mais de quatro anos de divisão, em particular porque já teriam concordado com a formação de um governo de unidade.
“Depois que ambas partes demonstraram flexibilidade, este assunto da formação do Governo já não é o grande tema da reunião, mas sim fechar a data para as eleições”, opinou o analista palestino Rajab Abu Serreya.
Morador de Ramala, capital administrativa da Cisjordânia e governada pelo Fatah por meio da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Serreya vê o processo eleitoral como a base da reconciliação, como o define também o acordo que ambas partes assinaram no último dia 4 de maio na capital egípcia. Esse documento, porém, fixava o pleito para um ano depois e, passados seis meses da assinatura, a expectativa é que agora haverá a necessidade de fazer reajustes.
As partes saíram temporariamente do processo definido no acordo por interesses particulares. No caso da ANP, porque Abbas preferiu seguir sozinho com seu pedido à ONU para que a Palestina fosse admitida como Estado de pleno direito. A reivindicação, com a qual desafiou os Estados Unidos e Israel, reforçou sua posição aos olhos dos palestinos após anos de infrutíferas negociações com os israelenses, e melhorou sua posição nas negociações com os islamitas.
No caso do Hamas, a recente troca com Israel de mil prisioneiros palestinos pelo soldado israelense Gilad Shalit teve um impulso similar após dois anos de desgaste político à sombra do bloqueio israelense sobre Gaza e de uma frágil situação econômica.
“Vamos ao Cairo com os corações abertos para dialogar sobre todos os temas e não andaremos para trás”, disse, à Efe, Azzam al Ahmad, responsável de Relações Internas do Comitê Central do Fatah e um dos negociadores com o Hamas, antes de partir para o Egito com Abbas.
Hani al Masri, diretor do Centro Badael para Estudos e Pesquisas, com sede em Ramala, considerou que o encontro será diferente desta vez porque, segundo ele, o interesse atual das duas partes é que o pacto seja aplicado com sucesso. “Não só Fatah e Hamas atravessam uma crise real, mas também todas as outras facções e partidos palestinos”, comentou.
Por outro lado, Mahmoud Musleh, deputado do Hamas no Conselho Legislativo Palestino considerou que haverá um golpe de estado na ANP se acontecer a reconciliação, e ressaltou que Abbas não poderá deixar suspensa a coordenação em matéria de segurança com Israel.
Desde 2007, o Hamas governa em Gaza, enquanto o Fatah controla o Executivo da ANP na Cisjordânia, daí a importância do pacto de unidade palestina assinado pelos dois principais movimentos.
A comunidade internacional acompanha com cautela a reunião desta quinta, assim como a eventual formação de um Executivo palestino integrado pelo Hamas, ao qual exigem que suspenda a luta armada, reconheça Israel e os acordos assinados por israelenses e palestinos.
O vice-representante da UE na Cisjordânia e Gaza, John Gatt-Rutter, afirmou nesta quarta em um encontro com jornalistas em Jerusalém que existem poucas possibilidades de formação de um novo Governo na reunião. “As partes estão muito afastadas, eu não esperaria muitos progressos amanhã”, apontou.
Representantes das duas facções palestinas anunciaram nesta semana que na reunião também será abordada a situação dos aparatos de segurança, pois cada Governo conta com suas próprias forças, o que representa outro dos obstáculos nos incontáveis esforços de reconciliação.
A remodelação da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), da qual o Hamas não faz parte, será outra das questões tratadas.
Ao final da reunião, a expectativa é que Abbas e Meshaal anunciem a criação de vários comitês de trabalho encarregados de levar adiante o processo de reconciliação.