Os europeus pediram, nesta sexta-feira (13), aos Estados Unidos de Donald Trump que sejam razoáveis, no primeiro dia da Conferência de Segurança de Munique, onde a França propôs tomar a Europa como “exemplo” em vez de criticá-la e a Alemanha convidou os “amigos americanos” a “reparar” a confiança transatlântica.
“A Europa tem sido vilipendiada como uma construção envelhecida, lenta e fragmentada, relegada pela história. Como uma economia excessivamente regulada e apática que se afastaria da inovação. Como uma sociedade presa a migrações bárbaras que teriam corrompido suas preciosas tradições”, declarou nesta sexta o presidente francês, Emmanuel Macron, em inglês.
Ele pediu que se pare de “caricaturar” o velho continente. Em alguns círculos, chega-se a descrever a Europa “como um continente repressivo onde a liberdade de expressão não existiria”, acrescentou, em resposta ao discurso pronunciado há um ano na mesma tribuna pelo vice-presidente americano JD Vance.
“Vamos reparar e revitalizar juntos a confiança transatlântica”, pediu antes dele, também em inglês, o chanceler alemão Friedrich Merz, dirigindo-se aos “amigos americanos” da Europa.
“Na era da rivalidade entre grandes potências, nem mesmo os Estados Unidos serão suficientemente poderosos para seguir sozinhos”, advertiu o chanceler na abertura desta conferência que reúne mais de 60 chefes de Estado e de governo.
O presidente finlandês Alexander Stubb concordou com Merz. “Há temas nos quais podemos trabalhar com os americanos (…) apesar de discordarmos cordialmente sobre questões relacionadas com a UE ou as instituições internacionais, a ordem internacional liberal e a mudança climática”, disse.
Merz também afirmou ter “iniciado discussões confidenciais com o presidente francês sobre a dissuasão nuclear europeia”.
“Uma Europa forte numa Otan forte”
“A Europa assume um papel de liderança mais importante dentro da Otan”, declarou o secretário-geral da Aliança Atlântica, Mark Rutte, que considera que “uma Europa forte numa Otan forte significa que o vínculo transatlântico será mais forte do que nunca”.
Essa relação vive “em meio a muita incerteza. Mas nós temos que esclarecer o que queremos para nós mesmos e o que temos que fazer. E os Estados Unidos têm que esclarecer o que estão dispostos a fazer pelos europeus”, disse Macron aos jornalistas ao chegar.
O encontro de Munique tem previsto para sábado um discurso por videoconferência da ganhadora do Prêmio Nobel da Paz de 2025, a venezuelana María Corina Machado.
À margem dos debates formais, o chefe da diplomacia ucraniana, Andrii Sybiha, afirmou na rede social X que conversou em Munique com seu par chinês, Wang Yi, sobre “os esforços de paz e o importante papel da China para facilitar o fim do conflito” com a Rússia.
O Ocidente e Kiev acusam Pequim de fornecer à Rússia um apoio econômico crucial para seus esforços de guerra, em particular componentes militares para sua indústria de defesa.
Ucrânia, Groenlândia, Irã
“É bom ter uma parceria sólida com os americanos”, declarou o presidente ucraniano, Volodimir Zelensky, em paralelo à conferência. Mas a Europa “precisa de uma indústria de defesa independente, muito forte em parceria com os Estados Unidos”, insistiu. “É o nosso continente.”
Dirigentes europeus, incluindo Merz e Macron, assim como os líderes do Canadá, da Otan e da União Europeia, reuniram-se com Zelensky para discutir a Ucrânia.
O secretário de Estado americano, Marco Rubio, que se reuniu nesta sexta com seu par chinês, não participou desse encontro devido à sua agenda apertada, informou um funcionário americano.
Macron afirmou recentemente que é a favor de retomar o diálogo com o presidente russo Vladimir Putin.
O chanceler alemão indicou que também está “disposto a falar” com a Rússia “se isso trouxer algo”, mas Moscou “ainda não tem a vontade de manter uma discussão séria”.
O próximo ciclo de negociações entre Moscou, Kiev e Washington para tentar encontrar uma solução diplomática para a guerra na Ucrânia será realizado na terça e na quarta-feira em Genebra, anunciou o Kremlin.
Macron destacou em Munique que a Europa deve “definir suas regras de convivência” com a Rússia uma vez que se tenha alcançado um acordo de paz.
E, se quiserem estar em uma “posição de força” para falar com a Rússia no futuro, os países europeus devem “desenvolver ativamente” suas ferramentas em matéria de defesa, especialmente no que diz respeito a sistemas de “ataques de precisão em profundidade”, disse.
Entre os temas de Munique destaca-se a Groenlândia, a ilha autônoma dinamarquesa que tem sido cobiçada por Trump.
Rubio, que falará no sábado na conferência, reuniu-se com a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, e seu par groenlandês Jens-Frederik Nielsen.
O Irã é outro dos assuntos que preocupa a comunidade internacional por seu programa nuclear e pela repressão das recentes manifestações antigovernamentais.
O diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Rafael Grossi, estimou que encontrar um acordo entre essa agência da ONU e Teerã sobre as inspeções do programa atômico iraniano é “possível”, mas “terrivelmente difícil”.