Representantes da sociedade civil e de povos tradicionais criticaram nesta terça-feira (25) o posicionamento dos Estados Unidos durante a 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), após o país bloquear a inclusão de pautas sociais nas negociações.
Entre os tópicos rejeitados está o de gênero, ligado à igualdade de direitos e à maior representatividade para as mulheres. A articuladora de gênero da sociedade civil na conferência, Beth Roberts, afirmou que os Estados Unidos exigiram a remoção da palavra em qualquer debate e a definiram como inegociável.
Beth disse que a postura adotada por Donald Trump desde o início de seu governo é abertamente ideológica e reflete estruturas mais amplas de poder. Ela argumentou que, quando as negociações são rompidas com a intenção de travar avanços, os demais países precisam se unir e usar as ferramentas do protocolo da conferência para proteger o espaço de discussão.
As principais decisões da COP17 precisam ser tomadas por consenso, e a objeção de um país a qualquer elemento dos textos oficiais impede a aprovação deles. Isso vale para agenda, mecanismos, relatórios, instrumentos políticos e protocolos globais, entre outros.
A representante do grupo indígena Jennifer Tauli Corpuz, do povo Kankana-ey Igorot das Filipinas, também criticou os bloqueios. Ela afirmou que, nas comunidades indígenas, o consenso não significa unanimidade e que a objeção de uma pessoa não deve sacrificar o bem de todos. Jennifer destacou ainda a urgência dos impactos no terreno, em referência à seca, à fome e às perturbações do clima.
A ativista Hindou Oumarou Ibrahim, líder do povo pastoral Mbororo, do Chade, disse que ciência e conhecimentos tradicionais devem ser colocados juntos, porque a sociedade civil e as comunidades representam as soluções reais. Ela reforçou que o grupo não está na conferência como observador passivo, mas para participar plenamente de todas as etapas do processo.
Brasil e União Europeia têm se destacado na oposição aos Estados Unidos e na defesa da inclusão da sociedade civil na agenda. Em evento paralelo na conferência, o ministro do Meio Ambiente e da Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, afirmou que as negociações precisam incluir os mais impactados e disse que é preciso enfrentar a resistência à participação desses grupos nos últimos dias da conferência.
O repórter viajou para a Mongólia a convite da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), após seleção entre jornalistas de diversos continentes.