A campanha massiva de bombardeios de Israel contra o Líbano, que em um dia resultou em pelo menos 303 mortes, não consegue alcançar resultados militares significativos contra o Hezbollah, segundo avaliação do capitão de reserva da Marinha brasileira Robinson Farinazzo, presidente do Instituto de Altos Estudos de Geopolítica, Segurança e Conflitos (Gsec).
“É difícil saber se eles estão conseguindo atingir as estruturas do Hezbollah. O Hezbollah camufla muito bem seus equipamentos, que são bastante espalhados. Eu acho que é mais uma campanha para impactar a população civil do Líbano”, avaliou o especialista.
Farinazzo afirmou que Israel não conseguirá destruir o grupo xiita, como anunciado em seus objetivos. “Israel não vai acabar com o Hezbollah e acho que eles sabem disso. Pode ser desespero do [Benjamin] Netanyahu porque ele sabe que o [Donald] Trump está numa situação difícil e pode ser retirado do conflito, mas ele não acha que essa campanha vai ter resultados militares”, disse.
Com o retorno dos combates entre Hezbollah e Israel no mês passado, o governo de Benjamin Netanyahu ameaçou ocupar o Líbano para criar uma zona tampão até o Rio Litani, a cerca de 30 quilômetros da fronteira. No entanto, o militar considera improvável que Israel consiga manter posições ao sul do rio por muito tempo. “O Exército de Israel está em uma situação bastante difícil com várias baixas. Chegar no Rio Litani, eu não duvido que consiga, o problema é ficar. Pode acontecer de atingirem a posição, mas depois a vida vira um inferno e começam a ter grandes baixas”, opinou.
Nesta sexta-feira (10), o secretário-geral do Hezbollah, Sheikh Naim Qassem, declarou que os bombardeios em massa contra Beirute e o sul do Líbano ocorrem devido ao fracasso de Israel em avançar por terra. “A mobilização de 100 mil soldados israelenses não o ajudará a ocupar, mas se transformarão em corpos”, ameaçou o líder do grupo xiita. O Hezbollah alega ter destruído mais de 100 tanques israelenses desde 2 de março.
Israel exige o desarmamento do Hezbollah, criado durante a ocupação israelense no Líbano no final da década de 1980, enquanto o grupo requer o fim dos bombardeios e a saída definitiva de Israel do território libanês.
Na terça-feira (7), Estados Unidos e Irã anunciaram um acordo de cessar-fogo de duas semanas. No dia seguinte, Israel intensificou os ataques ao Líbano, o que levou o Irã a ameaçar abandonar as negociações com Washington. Com a violação do cessar-fogo, o Hezbollah retomou os ataques contra Israel.
Sobre o Estreito de Ormuz, Farinazzo destacou que não há meios puramente militares para reabri-lo sem risco nuclear. “Só com uma bomba nuclear. Se a Marinha tentar entrar ali, ou eles vão minar aquilo, ou vão atingir os navios com mísseis de cruzeiro. É virtualmente impossível, com os meios que estão reunidos ali no Golfo Pérsico, os EUA reabrirem aquele trecho”, afirmou. Ele mencionou que vários navios americanos já foram atingidos no Mar Vermelho, mesmo sem admissão oficial, e que a situação em Ormuz seria pior.
Para o especialista, a solução menos ruim é a diplomacia. Ele alertou que nem a entrada da Otan na guerra alteraria o quadro e que insistir em ações militares poderia afundar os Estados Unidos, dado o compromisso do Irã em ir “para o tudo ou nada”. As informações foram retiradas da Agência Brasil.