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Mundo

Escudo das Américas gera críticas por possível ingerência na região

Especialistas veem a coalizão liderada pelos EUA como instrumento para ampliar influência na América Latina e conter a presença da China

Redação Jornal de Brasília

24/09/2026 17h48

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Foto: White House/Divulgação

A coalizão Escudo das Américas, liderada pelos Estados Unidos e formada por 15 países latino-americanos, passou a ser alvo de críticas de especialistas em relações internacionais, que veem na iniciativa um uso do combate ao narcotráfico como pretexto para ampliar a ingerência norte-americana na América Latina e restringir a influência econômica da China na região.

Criado em março deste ano, o grupo reúne EUA, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago. Em documento divulgado nesta semana, às margens da 81ª Assembleia-Geral da ONU, em Nova York, os países informaram a intenção de levar a proposta à Organização dos Estados Americanos (OEA) e de classificar 24 grupos narcotraficantes como terroristas, entre eles o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).

O professor de ciência política da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Danilo Enrico Martuscelli, afirmou que a coalizão representa uma “retomada desse processo de tentativa de anexação colonial ou imperial” dos países latino-americanos aos EUA, em uma lógica de disputa comercial e tecnológica com a China. Ele também criticou a política de Donald Trump, a quem chamou de “agressão imperial aberta”, e questionou o combate ao narcotráfico defendido pela Casa Branca ao lembrar o indulto concedido ao ex-presidente de Honduras Juan Orlando Hernández, condenado a 45 anos de prisão por facilitar a importação de cocaína para os EUA.

Na avaliação do professor de relações internacionais do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), Robson Valdez, o foco da coalizão é usar o narcotráfico para legitimar ingerências na América Latina e sinalizar à China que a manutenção de suas relações com os países da região pode ser revista sob a ótica da política externa norte-americana. Ele também disse que a iniciativa pode servir para legitimar a presença física de tropas americanas na região.

O documento da coalizão associa o combate às drogas a medidas de cooperação econômica, incluindo a proteção de cadeias de suprimento de minerais críticos por meio de fontes diversificadas e confiáveis. Os minerais críticos estão no centro da disputa comercial e tecnológica entre Washington e Pequim. O texto também fala em regulamentações para fornecedores confiáveis de infraestrutura digital aplicadas de forma não discriminatória.

Sem ter sido convocado para participar da iniciativa, o governo brasileiro acompanha o tema com cautela, embora mantenha medidas de cooperação internacional no combate ao crime organizado com países da região. Em Brasília, a avaliação é de que o Escudo das Américas pode ser usado por Washington para obter alinhamentos automáticos no campo econômico e impor possíveis restrições à presença da China na América Latina.

Segundo o documento conjunto, o grupo pretende apresentar proposta à OEA para uma atuação coordenada contra o narcotráfico. Os países afirmam que, uma vez convocada a reunião formal do Órgão de Consulta da OEA, pretendem participar em nível ministerial para considerar a adoção de uma resolução que promova e facilite a ação coletiva contra organizações narcoterroristas, nos termos do Tratado de Rio (TIAR). O governo brasileiro informou que aguarda a apresentação da proposta para decidir se apoiará ou rejeitará uma eventual resolução sobre o tema.

Para Martuscelli, levar a discussão à OEA é uma forma de pressionar países que ainda não aderiram à proposta, como Brasil, México, Uruguai e Canadá, e de buscar legitimidade institucional para a política defendida pelos EUA. Valdez acrescenta que o Escudo das Américas também pode ser usado para impor a venda de equipamentos militares norte-americanos, reduzindo a autonomia dos países da região na escolha de seus parceiros para compras de armamento.

Com informações da Agência Brasil

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