Dez dias após ataques aéreos dos Estados Unidos e Israel que mataram o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, e centenas de civis, o embaixador brasileiro no país, André Veras, alertou que a derrubada do regime islâmico por forças estrangeiras seria uma tarefa hercúlea, sangrenta e com altos custos econômicos globais.
Em entrevista ao programa Alô Alô Brasil, na Rádio Nacional, nesta segunda-feira (9), Veras destacou as dificuldades de uma eventual incursão terrestre, citando o vasto território montanhoso do Irã e sua capacidade militar ofensiva. Ele enfatizou que a situação difere de intervenções anteriores dos EUA e que ataques aéreos isolados não bastariam para mudar o regime.
Apesar dos bombardeios, a infraestrutura iraniana demonstra resiliência. Serviços básicos como água, luz e gás continuam funcionando, o comércio permanece aberto, escolas adotam aulas remotas e mercados estão abastecidos. A gasolina é racionada, uma limitação pré-existente agravada pelo conflito.
Outro indicativo da solidez institucional foi a rápida sucessão de Khamenei por seu filho, Seyyed Mojtaba Khamenei, de 56 anos. A Assembleia dos Especialistas escolheu Seyyed no fim de fevereiro, logo após a morte do pai e parte da família em bombas sobre a residência do antigo líder, com a confirmação ocorrendo neste domingo. Veras observou que o sistema iraniano tem processos automáticos de substituição para manter a continuidade.
A escolha, no entanto, pode intensificar críticas internas ao regime, que enfrenta protestos desde o ano passado contra o aumento do custo de vida e a repressão política. Veras ponderou que assumir o poder pelo filho cria a impressão de um regime hereditário, contrariando os ideais da Revolução Islâmica de 1979, que derrubou a monarquia do xá Reza Pahlavi. Seyyed, descrito como coadjuvante nas sombras durante a vida do pai, tem fortes laços com a Guarda Revolucionária e clérigos conservadores, o que pode ser visto como uma resposta dura à contestação interna e externa.
Quanto à presença brasileira, Veras informou que cerca de 200 pessoas vivem no Irã, principalmente mulheres casadas com iranianos. Não há necessidade de operação de evacuação, pois as fronteiras terrestres com vizinhos permanecem abertas para saídas. A embaixada mantém contato diário com o Itamaraty, que informa o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e atende demandas por documentação e vistos.
Embora a resistência aos ataques seja vital para o regime, tornando a rendição improvável, o embaixador não descarta uma solução diplomática. Ele argumentou que o Irã busca o fim das sanções econômicas dos EUA, enquanto Donald Trump e o mundo necessitam de paz para a economia global e rotas comerciais. Veras advertiu que uma guerra prolongada traria perdas para todos em uma economia globalizada e que os custos crescentes podem trazer racionalidade ao processo.