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Em Nova Délhi, Lula defende governança global da IA e alerta: “Quando poucos controlam os algoritmos, não é inovação, é dominação

O presidente brasileiro alertou para riscos à democracia e desigualdades ampliadas pela inteligência artificial sem regulação coletiva global.

Redação Jornal de Brasília

19/02/2026 7h39

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Presidente Lula e outros líderes durante a cerimônia de abertura da Cúpula sobre o Impacto da Inteligência Artificial (IA), no Centro de Convenções Bharat Mandapa, em Nova Délhi, na Índia – Foto: Ricardo Stuckert / PR

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu, nesta quinta-feira (19/20), em Nova Délhi, na Índia, uma governança multilateral, inclusiva e orientada ao desenvolvimento para a inteligência artificial (IA), durante a Sessão Plenária da Cúpula sobre o Impacto da Inteligência Artificial.

Lula alertou que, sem ação coletiva, a tecnologia pode aprofundar desigualdades históricas e fragilizar democracias. ‘A Quarta Revolução Industrial avança rapidamente enquanto o multilateralismo recua perigosamente. É nesse contexto que a governança global da inteligência artificial assume um papel estratégico’, afirmou o presidente. Ele enfatizou a necessidade de reconhecer a diversidade de trajetórias nacionais para que a IA fortaleça a democracia, a coesão social e a soberania dos países.

Segundo a União Internacional de Telecomunicações, 2,6 bilhões de pessoas estão desconectadas do universo digital. Para Lula, é imperativo priorizar as pessoas nas discussões sobre o tema. ‘Colocar o ser humano no centro das nossas decisões é tarefa urgente. O regime de governança dessas tecnologias definirá quem participa, quem é explorado e quem ficará à margem desse processo’, declarou.

O presidente destacou os perigos do uso indiscriminado da IA, que possui caráter dual e pode ameaçar democracias, contaminar processos eleitorais com conteúdos falsos manipulados, como deepfakes, e fomentar práticas nefastas, incluindo discursos de ódio, desinformação, pornografia infantil, feminicídio, violência contra mulheres e meninas, e precarização do trabalho. Ele comparou a IA a inovações passadas, como a aviação, o uso do átomo e a engenharia genética, que podem multiplicar o bem-estar ou lançar sombras sobre a humanidade.

Lula defendeu a regulamentação das empresas responsáveis pelas principais plataformas de IA, conhecidas como Big Techs. ‘Capacidades computacionais, infraestrutura e capital permanecem excessivamente concentrados em poucos países e empresas. Os dados gerados por nossos cidadãos, empresas e organismos públicos estão sendo apropriados por poucos conglomerados, sem contrapartida equivalente em geração de valor e renda em nossos territórios’, alertou. Ele criticou o modelo de negócios dessas empresas, baseado na exploração de dados pessoais e na amplificação de radicalização política, e ligou a regulação à salvaguarda dos direitos humanos, integridade da informação e proteção das indústrias criativas.

No Brasil, o país tem fortalecido discussões sobre atração de investimentos em centros de dados e um marco regulatório para IA. Em 2025, foi lançado o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, visando melhorar a qualidade de vida por meio de serviços públicos mais ágeis e geração de emprego e renda.

A Cúpula em Nova Délhi é o quarto encontro do Processo de Bletchley, iniciado em Bletchley Park, no Reino Unido, em novembro de 2023, seguido pelas cúpulas em Seul, em maio de 2024, e em Paris, em fevereiro de 2025. É a primeira vez que um presidente brasileiro participa de um evento global de alto nível sobre IA.

A visita reforça os laços econômicos entre Brasil e Índia. Trata-se da quinta viagem de Lula ao país asiático e a segunda no atual mandato. Em setembro de 2023, ele viajou com mais de 100 delegações empresariais brasileiras em busca de oportunidades de comércio e empreendimentos conjuntos.

Em julho de 2025, o primeiro-ministro indiano Narendra Modi visitou o Brasil a convite de Lula, após a Cúpula do BRICS no Rio de Janeiro. Os líderes emitiram um Comunicado Conjunto identificando cinco pilares para o relacionamento bilateral: paz, defesa e segurança; transição energética e justiça climática; segurança alimentar e comércio agrícola; transformação digital e ciência & tecnologia; e parcerias industriais em setores estratégicos.

Lula e Modi se encontraram quatro vezes nos últimos três anos, em eventos como as Cúpulas do G7 e G20.

Após a cúpula, Lula cumprirá agenda bilateral com Modi para discutir expansão das relações econômicas e tecnológicas, desafios ao multilateralismo, reforma da governança global, incluindo as Nações Unidas e seu Conselho de Segurança, paz em Gaza e soberania das nações.

Em 2025, o comércio bilateral atingiu US$ 15 bilhões, aumento de 25,5% em relação a 2024, o maior valor histórico. As exportações brasileiras para a Índia foram de US$ 6,9 bilhões, fazendo dela o 10º destino; as importações, de US$ 8,4 bilhões, posicionando-a como a 6ª origem. Os países visam US$ 20 bilhões até 2030 e negociam ampliação do Acordo de Comércio Preferencial MERCOSUL-Índia.

A Índia, com 1,4 bilhão de habitantes, é a quarta maior economia mundial, com PIB de cerca de US$ 4,2 trilhões, podendo se tornar a terceira até 2030. É o segundo maior produtor agrícola global e o nono em exportações agrícolas, atrás apenas da China em produção e com o Brasil em quarto lugar nesse critério.

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