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Em crise política, Zelenski demite assessora por corrupção

A votação ocorreu nesta quarta, e Khmara foi aprovado por 312 dos 325 deputados presentes

Redação Jornal de Brasília

19/08/2026 10h26

Foto: Saul Loeb/AFP

Foto: Saul Loeb/AFP

IGOR GIELOW
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

Sob intensa pressão política e pela dinâmica mais violenta da Guerra da Ucrânia, o presidente Volodimir Zelenski teve de demitir nesta quarta-feira (19) mais uma pessoa de seu círculo de poder sob acusação de corrupção.

A queda da vice-chefe de gabinete presidencial, Irina Mudra, ocorreu após dois órgãos de investigação apontarem que ela e outros integrantes do governo participavam de um esquema de lavagem de dinheiro. No fim de 2025, o chefe de gabinete e braço-direito de Zelenski, Andrii Iermak, renunciou após apuração análoga.

O episódio ocorre um dia depois que o popular ex-ministro da Defesa Mikhailo Fedorov, demitido por Zelenski em 16 de julho, publicou um vídeo criticando o governo e pedindo a realização de eleições presidenciais mesmo com a vigência da lei marcial, que as impede em tempo de guerra.

A declaração de Fedorov, cuja exoneração levou a uma onda de protestos de rua que teve seu capítulo mais recente no domingo (16), ocorreu logo depois de Zelenski enviar para aprovação da Rada (Parlamento) o nome de seu sucessor, Ievhenii Khmara.

A votação ocorreu nesta quarta, e Khmara foi aprovado por 312 dos 325 deputados presentes. Ainda não se sabe se isso será suficiente para demover os manifestantes, que agora têm uma nova agenda e prometem novos atos. Nesta quarta, um grupo protestou e lamentou a votação à frente da Rada.

Khmara é um general de divisão que desde o começo do ano liderava interinamente o poderoso SBU (Serviço de Segurança da Ucrânia), e havia sido colocado de forma provisória na cadeira de Fedorov.
Militar de vida tão discreta que nem sua idade é conhecida na imprensa ucraniana, ele ganhou fama na operação que reconquistou das mãos russas a ilha da Cobra, no mar Negro, logo depois da invasão de Vladimir Putin em 2022.

Ele dirigiu várias ações secretas do SBU contra os rivais, a mais famosa delas sendo a Operação Teia de Aranha, que atingiu diversas bases de bombardeiros dentro da Rússia com drones que haviam sido transportados por caminhões, há pouco mais de um ano.

Sua popularidade relativa não se compara, contudo, à do antecessor. O jovem Fedorov, de 35 anos, havia assumido no começo do ano e implantou uma rápida mudança nos processos do seu ministério, integrando compras e intensificando o diálogo com a indústria de defesa.

Ele apoiou uma até aqui bem-sucedida campanha para levar os impactos da guerra aos civis russos, com ataques sistemáticos de drones e mísseis contra o sistema energético, centros logísticos da “Amazon russa” e a exportação de grãos pelo mar Negro.

As ações levaram a resultados como o fato de só que 28% dos postos de combustíveis russos têm diesel e gasolina nesta semana, segundo o jornal Izvestia. A aprovação de Putin e à guerra caíram, embora sigam altas.

Em sua bombástica declaração, Fedorov evitou nominar Zelenski, mas se colocou como seu adversário claro. “O sistema antigo costuma viver por suas próprias regras. Ele se protege e tem medo de mudança”, disse.

Sua queda deveu-se ao fato de que bateu de frente na estrutura militar estabelecida, que o comandante das Forças Armadas, Oleksandr Sirskii, personificava.

Quando as manifestações começaram contra a queda de Fedorov, Zelenski entregou a cabeça do general e o substituiu por um oficial mais jovem e arejado, Mikhailo Drapatii.

Foi insuficiente, exacerbando a natureza política do episódio. Como quando demitiu o antecessor de Sirskii, o popular general Valeri Zalujni, Zelenski deixou claro que não admite figuras em seu entorno que possam lhe fazer sombra.

Só que Fedorov aparenta ter apoio popular, e sua fala exigindo eleições o coloca em rota de colisão. O cenário favorece Putin, que sempre apontou para o fato de que o mandato de Zelenski terminou em maio de 2024 para chamá-lo de ilegítimo, uma argumentação que chegou a ser repetida por Donald Trump.

Por evidente, o currículo de Fedorov na Defesa não permitirá a rivais acusá-lo de fazer o jogo de Putin, mas, na prática o russo é favorecido. E há também efeitos da renovada campanha de Kiev, que nesta quarta atingiu mais uma refinaria no centro do país.

O recrudescimento da violência na guerra pune principalmente os ucranianos. Julho foi o mês com mais mortos por dia no conflito desde março de 2022, com 21,8 fatalidades registradas por monitores independentes. Dessas, 85,6% ocorreram no país de Zelenski.

Nesta quarta, ao menos quatro pessoas morreram quando um drone atingiu um micro-ônibus na cidade de Kherson (sul). Até a metade do dia, 17 pessoas haviam morrido em ataques em toda a Ucrânia nas últimas 24 horas, segundo o governo.

Agravando o quadro para Kiev, o país está sofrendo de escassez aguda de mísseis antiaéreos. Com isso, suas forças conseguem abater os drones enviados para saturar defesas, mas têm falhado contra mísseis. Trump recusou-se a enviar munição para os sistemas Patriot usados pela Ucrânia, não menos porque eles estão sob alta demanda no Oriente Médio.

Apesar de a diplomacia estar estagnada, muito em decorrência do engajamento americano na sua guerra contra o Irã em detrimento ao conflito europeu, alguns contatos ocorrem. Nesta quarta, os rivais trocaram 103 prisioneiros de guerra de cada lado.

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