GUILHERME BOTACINI
FOLHAPRESS
A ideia de que as Nações Unidas vivem grave crise de eficiência e legitimidade fez parte de praticamente todos os discursos de líderes na Assembleia Geral em Nova York na última semana. O aparente consenso de que a ONU não funciona não se traduz, contudo, em uma desaprovação generalizada da organização.
Pelo contrário, pesquisas recentes sobre a percepção pública da ONU mostram que a entidade maior de cooperação internacional é, na mediana global, mais aprovada do que reprovada pela população de países-membros.
Pesquisa Gallup divulgada durante a Assembleia Geral deste ano ouviu adultos de 137 países de março a dezembro do ano passado. O resultado indica que a taxa mediana de aprovação nos 137 países foi de 50%; 26% desaprovam. Além disso, 15% afirmam não saber avaliar, e 2%, que a resposta depende de outros fatores. Foram cerca de mil adultos ouvidos em cada país, com margem de erro amostral de 2,2 a 5,5 pontos percentuais.
Dados agregados por regiões mostram que, com exceção de uma delas, todas seguem a tendência global, ainda que com amplitudes muito diferentes. A pesquisa indica que o Sudeste Asiático é a região que mais aprova a ONU (69% de aprovação contra 18% de desaprovação), seguida pela África Subsaariana (61% contra 18%) e pela Europa fora da União Europeia (57% a 30%).
A América Latina é a região em que aprovação e desaprovação são mais equilibradas, registrando 38% que aprovam a ONU e 34% que desaprovam. A única região pesquisada com mais desaprovação do que aprovação é Oriente Médio e Norte da África, com 46% de desaprovação e 23% de aprovação.
Os resultados acompanham o que outros levantamentos sobre o tema têm registrado, segundo Albert Trithart, chefe de publicações do Instituto Internacional da Paz (IPI, na sigla em inglês), que estuda o tema. Pesquisa do Pew Research Center com 37 países mostra mediana de 55% de aprovação contra 37% de desaprovação, por exemplo.
“É importante lembrar que a maioria das pessoas não sabe muito sobre a ONU. Nem sempre é claro o que elas têm em mente quando se fala do assunto. Pensam no Conselho de Segurança, em alguma operação de paz? Ou de forma geral, na cooperação internacional?, diz Trithart.
PAÍSES EM QUE A ONU É MAIS DESAPROVADA
(aprovação líquida = percentual de aprovação menos o de desaprovação)
desaprovação)
Israel: 61%
Rússia: 58%
Tunísia: 48%
Palestina (Cisjordânia e Jerusalém Oriental): 45%
Iraque: 38%
PAÍSES EM QUE A ONU É MAIS APROVADA
(aprovação líquida = percentual de aprovação menos o de desaprovação)
Vietnã: +75%
Camboja: +74%
Laos: +71%
Madagascar: +69%
Tanzânia: +69%
O especialista indica, por exemplo, que uma possível hipótese para os dados é a forte correlação encontrada em estudos entre confiança geral nas instituições e a avaliação da ONU, como uma extrapolação da aprovação ou desaprovação das instituições domésticas para o cenário internacional. Ou seja: países em que a população deposita mais confiança em suas próprias instituições tendem a ver as Nações Unidas de maneira mais positiva.
Para ele, a nova pesquisa Gallup é notável porque consegue cobrir muitos países e, em particular, regiões e nações que costumam apresentar as maiores lacunas de dados sobre o tema, como a África Subsaariana, onde a ONU é mais presente com operações de paz e ajuda humanitária.
A empresa de pesquisas não tem, contudo, outros levantamentos semelhantes recentes, e tampouco há séries históricas longas e completas de outras pesquisas que mostrem com alto nível de confiança a mudança da opinião pública sobre a ONU em nível global por décadas ou anos.
Isso, somado ao fato de que a ONU é um guarda-chuva de dezenas de agências, operações e organizações, significa que é difícil traçar conclusões gerais e mesmo correlações simples entre o trabalho da organização internacional e percepções sobre ela.
Há ainda uma grande discrepância entre países. Em alguns casos os números parecem mais óbvios, como em Israel e nos territórios palestinos, onde a aprovação líquida (percentual dos que aprovam menos o dos que desaprovam) é 61% negativo e 45% negativo, respectivamente.
O conflito israelo-palestino é parte constituinte dos 81 anos de história da ONU e tem provocado críticas de todos os lados, seja pela percepção de parcialidade ou pela ineficácia em solucionar a crise.
Outros casos são menos evidentes, como a desaprovação líquida de 58% na Rússia, um membro permanente do Conselho de Segurança da organização, com enorme poder em razão de sua capacidade de veto no colegiado máximo.
No Brasil virou meme a ideia de que a ONU não faz nada diante das graves crises humanitárias e guerras simultâneas, o que se reflete na aprovação líquida negativa de 4%, um pouco abaixo da América Latina e Caribe, mas não muito distante da aprovação líquida regional de 4% positivo. A pesquisa não divulgou esses dados desagregados por país.
Outro fator captado pela pesquisa foram as percepções sobre a ONU por idade. A Gallup ouviu pessoas acima de 15 anos, e os resultados mostram que a faixa etária de 15 a 29 anos é a que mais aprova a organização, em todas as regiões, incluindo no Oriente Médio e no Norte da África onde, porém, os mais jovens ainda mostram reprovação líquida de 20%, contra 36% negativo para maiores de 50 anos.
De acordo com Trithart, há uma generalização que se reflete em narrativas sobre a ONU de que a organização vive uma crise de legitimidade em particular entre os mais jovens e a geração Z, mas os dados dessa e de outras pesquisas não indicam isso.
Entre as hipóteses levantadas pelo especialista estão a possibilidade de que os mais jovens se preocupam com questões fundamentalmente transnacionais, como a crise climática, ou que cresceram sob o impacto da pandemia da Covid-19, e que portanto entendem mais facilmente que algum nível de cooperação internacional é necessário e que a ONU é esse canal.
“As pesquisas mostram que as pessoas querem, majoritariamente, a ONU fazendo mais, tendo mais autoridade e sendo mais ativa, não menos”, afirma Trithart.
Em crise e sob reforma, ONU é mais aprovada do que reprovada, indica pesquisa
Pesquisas recentes indicam que a ONU é mais aprovada do que rejeitada pela população dos países-membros na mediana global
Plenário da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Foto: TIMOTHY A. CLARY/AFP