Dois dias após a captura do ditador Nicolás Maduro, Caracas começou a retomar sua rotina ontem. Padarias, cafés e outros comércios reabriram e as ruas voltaram a ter movimento. O clima, porém, ainda é de medo e incerteza sobre o futuro.
Para entender como a cidade vive depois do ataque americano, o Estadão conversou com três moradores de Caracas: uma comerciante, um professor universitário e uma engenheira. Nenhum quis ter o nome completo divulgado.
Os três contam que estavam em casa no momento do ataque e não associaram o barulho a uma ação militar. A comerciante María Fernanda, de 53 anos, pensou se tratar de um terremoto. Já a engenheira Rosa, de 68, achou que fosse um trovão.
Segundo os relatos, o bombardeio afetou a rotina da capital venezuelana no sábado e no domingo, com ruas vazias, comércio fechado e restrições no transporte público. Supermercados e farmácias que permaneceram abertos registraram filas, e muitos venezuelanos correram para estocar alimentos e medicamentos diante do receio de um novo ataque.
Rosa conta que alguns supermercados limitaram a entrada de clientes. No domingo, diz a engenheira, houve escassez de produtos frescos, como frutas e verduras, enquanto itens básicos e duráveis – enlatados, arroz, farinha, café e papel higiênico – concentraram a procura.
Ontem, porém, o cenário já foi outro. “Hoje, tudo está normal. O transporte público está funcionando e as pessoas estão trabalhando. Há pouco eu estava tomando café em uma cafeteria que estava cheia”, afirma María Fernanda.
Luis Rodríguez, que é professor em uma universidade pública e outra privada, também diz que as atividades voltaram ao normal. “Funcionários de empresas privadas foram trabalhar hoje (ontem), o comércio em geral abriu e os serviços também estão operando normalmente. Estamos retornando à vida normal pouco a pouco. Ontem (domingo), por exemplo, minha família e eu fomos à igreja”, conta o docente.
A volta gradual da rotina, porém, convive com o sentimento de incerteza. Os três venezuelanos compartilham essa percepção e relatam que, em público, as pessoas evitam falar sobre a captura do ditador.
“As pessoas não parecem felizes nem comemorando, diferentemente dos venezuelanos que vivem no exterior”, diz Rosa.
María Fernanda resume em uma palavra o clima nas ruas: silencioso. Segundo ela, pouco se fala sobre o que aconteceu no fim de semana porque “há muita incerteza e não se sabe o que vai acontecer”.
Na mesma linha, Luis Rodríguez afirma que muitos venezuelanos evitam comentar o ataque e a captura de Maduro em público por segurança. “O clima é de muita apreensão.”
Os três entrevistados dizem que houve maior presença de policiais nas ruas no domingo, mas que ontem a situação já voltou a níveis usuais. Rosa foi a única a dizer que percebeu um efetivo policial maior nas grandes avenidas.
Estadão Conteúdo