Segundo as autoridades eleitorais kosovares, o começo do dia de votações transcorreu sem incidentes, embora com uma baixa participação, atribuída ao mau tempo na região.
O principal favorito para o cargo de primeiro-ministro, o ex-líder guerrilheiro Hashem Thaçi, do agora opositor Partido Democrático do Kosovo (KDP), disse hoje, ao depositar seu voto, que a independência da província é inevitável.
“Vamos declarar a independência imediatamente depois de 10 de dezembro”, afirmou, em alusão ao prazo imposto pela ONU para encontrar uma solução estipulada entre Belgrado e Pristina. O presidente kosovar, Fatmir Sejdiu, da Liga Democrática do Kosovo (LDK), ressaltou que “a independência está perto”.
Os sérvios, que constituem 5% dos 2 milhões de habitantes do Kosovo, pareciam cumprir seu prometido boicote eleitoral, estimulado por Belgrado, para não dar legitimidade às instituições kosovares que ameaçam declarar a soberania.
A abstenção total da votação chegou a mais de 75% até a metade do dia. Em entrevista coletiva, o chefe da Comissão Eleitoral Central do Kosovo, Mazllum Baraliu, afirmou que a participação era de 24% às 14h (11h de Brasília).
A adesão ao boicote foi verificada em Gracanica, nos arredores de Pristina, onde, dos cerca de 5 mil sérvios com direito a voto, apenas 40 tinham comparecido às urnas nas primeiras três horas de votação.
Um deles, Milan, um desempregado de 55 anos, disse que participou do pleito “para protestar contra a burocracia do Governo em Belgrado”, que o faz viver na miséria.
Os albano-kosovares, que são 90% dos habitantes de Kosovo, apostam tudo pela independência, para poder progredir após 8 anos de espera a uma definição sobre o status da província. “Espero que finalmente haja mudanças e que a independência melhore nossa situação. Estamos no desemprego, paralisados e com as mãos atadas”, afirmou Fadil, de 45 anos, após votar no centro de Pristina.
Outro eleitor, Ismet, de 35 anos, disse que “ninguém quer investir em um país do qual não se sabe se é um Estado, meio Estado ou uma parte da Sérvia”.
O ativista independentista Albin Kurti, do movimento radical “Vetvendosja” (Autodeterminação), reiterou o pedido de boicote ao pleito. “Não precisamos de eleições, e sim definir nosso status. Os partidos políticos tiveram oito anos para declarar a independência e não fizeram nada”, argumentou Kurti, que está em prisão domiciliar, após organizar uma violenta manifestação em março, na qual duas pessoas morreram.
A situação social e econômica do Kosovo é calamitosa, com uma percentagem de desemprego superior a 40%, e grande parte das famílias depende de ajudas enviadas por parentes do exterior.
Os kosovares devem escolher hoje a composição do Parlamento provincial, de 120 cadeiras, e 30 prefeitos e assembléias municipais. A votação ocorre durante a reta final da última fase de negociações entre as partes enfrentadas sobre o futuro estatuto sob mediação de um Grupo de Contato, formado por Estados Unidos, União Européia e Rússia, que apresentará em 10 de dezembro à ONU um relatório sobre os resultados do processo.
Os albaneses defendem a independência como a única via de solução, mas os sérvios rejeitam fortemente essa decisão e oferecem um máximo de autonomia à província. Os 621 colégios eleitorais permanecerão abertos até as 19h (16h de Brasília), e as primeiras projeções devem sair esta noite. Os primeiros resultados oficiais só deverão ser divulgados dentro de dois ou três dias.
O Kosovo está sob administração internacional desde o fim dos bombardeios da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) contra a Sérvia em junho de 1999, e mais de 16 mil soldados internacionais continuam responsáveis pela segurança da província.