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Do sul da África à Austrália, a nova rota da metanfetamina do cartel de Sinaloa

Polícia sul-africana investiga produção em escala industrial destinada aos mercados da Austrália e da Nova Zelândia

Redação Jornal de Brasília

24/09/2026 16h57

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Foto: GUILLERMO ARIAS / AFP

Quando chegaram a Johannesburgo, supostos turistas mexicanos explicaram aos agentes de imigração que pretendiam conhecer os parques naturais sul-africanos para observar elefantes, rinocerontes, leões, leopardos e búfalos.

Na realidade, segundo a polícia, eles eram químicos enviados pelo cartel mexicano de Sinaloa para instalar um laboratório de metanfetamina em escala industrial no povoado rural de Swartruggens, um dos sete descobertos no sul da África nos últimos dois anos.

Os investigadores suspeitam que o laboratório faça parte de uma rede do cartel de Sinaloa destinada a abastecer Austrália e Nova Zelândia, os mercados de metanfetamina mais lucrativos do planeta, onde os preços são entre 65 e 100 vezes mais altos do que nos Estados Unidos.

Quando foi desmantelado, em maio, o laboratório tinha capacidade para produzir cinco toneladas por mês dessa droga sintética altamente viciante, o equivalente a mais de 1 bilhão de dólares (R$ 5,1 bilhões) em vendas no atacado na Austrália, acrescentaram as fontes.

Devon Naicker, chefe da unidade de combate aos entorpecentes da África do Sul, explicou que as autoridades investigam se uma carga apreendida neste ano na Austrália procedia de Swartruggens, a duas horas e meia de Johannesburgo.

O fato de a carga ter “passado pelo porto de Durban”, na costa leste da África do Sul, e a “maneira como estava embalada” levam as autoridades a acreditar que ela foi produzida nessa instalação.

A África do Sul é o “lugar perfeito” para produzir metanfetamina, declarou à AFP uma fonte da área de segurança. Isso porque o país tem enormes extensões de terra onde os laboratórios podem ser escondidos, conexões marítimas e aéreas com todo o mundo e “corrupção, que desempenha um papel importante”, afirmou a fonte. Além disso, quase um terço do comércio do país é realizado com China e Índia, de onde procedem os produtos químicos essenciais para fabricar metanfetamina.

A polícia australiana confirmou à AFP que havia detectado “um aumento do interesse dos cartéis mexicanos pelo mercado de drogas ilícitas da Austrália”. No entanto, “devido à natureza delicada das operações, não faremos comentários sobre os cartéis mexicanos que atuam na África do Sul”, acrescentou.

O contrabando parece não ocorrer exclusivamente por via marítima. Em janeiro, uma mulher de 32 anos foi detida no aeroporto de Sydney, em um voo procedente da África do Sul, com 39 quilos de metanfetamina em pó na bagagem.

Além de lucrativo, o mercado australiano é enorme. “A metanfetamina é a droga ilícita mais consumida” depois da cannabis, segundo um relatório de 2024 elaborado pela agência antidrogas americana DEA e pelas polícias da Austrália e da Nova Zelândia.

Essas duas forças policiais já haviam constatado que núcleos locais da gangue de motociclistas Comancheros eram abastecidos com drogas pelo cartel de Sinaloa.

– A pista mexicana –

As diferentes investigações policiais em andamento começam a esclarecer a cadeia de abastecimento criada pelo cartel mexicano no sul da África para atender à demanda australiana.

O mesmo modo de operação foi observado na Nigéria, no oeste da África, onde quatro mexicanos foram detidos neste ano durante operações em laboratórios de metanfetamina.

Na África do Sul, 16 mexicanos foram detidos desde 2024. O primeiro laboratório com essas características foi descoberto em 2020 na localidade agrícola de Marble Hall, ao nordeste de Johannesburgo.

Quando ocorreu a operação em Swartruggens, em maio, a enorme dimensão da estrutura já apontava claramente para a organização de Sinaloa.

Cinco dos 13 detidos eram mexicanos, todos químicos, segundo a polícia. Eles teriam começado a fabricar a droga pouco depois de chegar, em março de 2025, com vistos de turista válidos por três meses.

Também foram detidos dois moçambicanos, um zimbabuano e quatro sul-africanos, três deles integrantes da família africâner proprietária da extensa reserva de caça onde o laboratório foi instalado.

Os cartéis “parecem procurar agricultores que enfrentam dificuldades”, embora nem sempre seja assim, declarou à AFP uma fonte próxima ao caso.

A família africâner comprou a propriedade em 2024. Além disso, os pais respondiam a um processo por alugar terrenos onde era produzido ilegalmente mandrax, um sedativo hipnótico destinado ao mercado local.

Segundo a polícia, os laboratórios de metanfetamina costumam ser instalados em propriedades isoladas, mas com acesso fácil às principais estradas, como no caso de Swartruggens.

– “Fede muito” –

“Eles precisam de um fornecimento contínuo de produtos químicos” para fabricar os precursores e também “retirar rapidamente a substância final do laboratório”, afirmou Naicker, da unidade anti-entorpecentes. Isso exige “várias cargas chegando nesses caminhões”, acrescentou.

O cartel de Sinaloa utiliza o chamado método P2P, baseado no composto fenil-2-propanona, até então desconhecido na África do Sul, e em produtos químicos importados da China e da Índia, afirmou outro agente.

“Mas a fabricação dos precursores fede muito”, declarou Naicker. “É possível sentir o cheiro a quilômetros de distância se o vento soprar naquela direção”, explicou.

Em agosto, a polícia apreendeu cinco toneladas de solventes, catalisadores e reagentes usados pelos cartéis em uma operação na fronteira com o Zimbábue, realizada com a ajuda dos Estados Unidos.

Antes disso, as autoridades rastrearam um contêiner suspeito que havia entrado pelo porto de Durban até localizar cinco galpões cheios de produtos químicos e equipamentos em Midrand, a meio caminho entre Pretória e Johannesburgo.

No início deste mês, a polícia desmantelou um laboratório em escala industrial que “parece uma instalação mexicana” em uma propriedade de Klipvoor, a cerca de três horas ao norte de Johannesburgo, explicou Naicker.

Os grandes tanques encontrados no local, cada um com capacidade para várias centenas de litros, são outro indício do envolvimento dos cartéis.

“Trata-se de equipamento industrial, mas fabricado à mão. Não é possível encontrá-lo em nenhuma loja”, afirmou uma fonte próxima à investigação.

“Acreditamos que eles tragam seus próprios caldeireiros para construir todos esses tanques. Esse é o nível de especificidade”, acrescentou.

– Ensinando os moradores locais –

O general de brigada Naicker afirmou que mexicanos de “alto nível” costumam chegar para instalar os laboratórios. Depois, porém, “deixam outros mexicanos responsáveis pela operação, pessoas com formação em química que entendem o processo (…) para dar continuidade à fabricação de metanfetamina”.

Em outros casos, eles ensinavam aos moradores locais “como realizar a produção e vinham apenas para supervisioná-los”, como ocorreu em um laboratório desmantelado em 2024, a 35 quilômetros de Johannesburgo, explicou.

Uma fonte da área de segurança afirmou que os mexicanos detidos “estão na parte inferior da cadeia” de comando, incluindo os presos em Swartruggens em maio, embora tivessem conhecimentos técnicos.

Os cinco disseram à polícia que tiveram os olhos vendados e foram mantidos como reféns ao chegar à África do Sul.

No entanto, um investigador zombou das declarações e respondeu que “eles receberam tudo o que queriam” para que sua “estadia fosse confortável”. “Que sequestrador dá aos seus reféns… comida e bebidas alcoólicas caras?”

– Laboratórios industriais na Nigéria –

Um padrão semelhante é observado na Nigéria. Uma década após as autoridades acreditarem ter expulsado os cartéis mexicanos, começaram a reaparecer laboratórios de metanfetamina supostamente ligados aos grupos de Sinaloa e Jalisco Nova Geração.

Assim como a África do Sul, a Nigéria tem vastas extensões de áreas remotas onde os laboratórios podem ser escondidos, além de portos e aeroportos com fiscalização vulnerável pelos quais a mercadoria pode ser traficada.

Em maio, as autoridades desmantelaram o maior laboratório de metanfetamina já descoberto no país, na zona rural do estado de Ogun.

Três mexicanos foram detidos sob a acusação de manter vínculos com os cartéis, assim como sete nigerianos. Outro mexicano foi preso em uma operação realizada em junho no estado de Oyo.

“A produção em escala industrial encontrada nos dois laboratórios confirma que o objetivo era o mercado internacional, especialmente a Europa, o Sudeste Asiático e a Oceania”, declarou à AFP Femi Babafemi, porta-voz da Agência Nacional de Combate às Drogas.

O laboratório do estado de Ogun ficava em uma floresta entre os povoados de Abidagba e Iroto. Os moradores receberam inicialmente os forasteiros com satisfação.

“Ouvimos rumores de que construiriam um conjunto habitacional no local”, afirmou Florence Banjo, de 59 anos. “Fiquei feliz porque finalmente asfaltariam a estrada que leva ao nosso povoado”, mas “ficamos decepcionados”.

– ‘Grande capacidade de corromper’ –

Cinco dos 28 laboratórios de metanfetamina desmantelados na Nigéria desde 2016 tinham mexicanos envolvidos, afirmou Babafemi.

Segundo ele, os mexicanos apareceram pela primeira vez há uma década. “Eles vieram transmitir seus conhecimentos técnicos aos colaboradores locais. Depois que foram expulsos, os colaboradores locais assumiram o controle”.

A retomada das atividades dos cartéis na África se deve, em parte, à pressão exercida sobre eles pelos Estados Unidos e pelos governos da América Latina, afirmou Babafemi.

“Devemos nos preocupar seriamente com a expansão” dos cartéis “para fora de seu principal reduto”, afirmou Vanda Felbab-Brown, diretora da Iniciativa sobre Grupos Armados Não Estatais da Brookings Institution.

Segundo ela, a África é “um ambiente operacional favorável aos mexicanos, que têm grande capacidade de corromper as pessoas”.

A metanfetamina produzida por eles é muito mais potente e letal do que a versão da droga que grupos criminosos chineses procedentes da China e de Mianmar costumavam contrabandear para a Austrália, acrescentou.

Em Moçambique, antes considerado apenas um país de trânsito de drogas, dois mexicanos foram detidos no aeroporto da capital, Maputo, em abril.

Posteriormente, uma grande quantidade de produtos químicos usados para fabricar metanfetamina foi encontrada na casa de seu suposto cúmplice local.

– Consumo local –

A produção e o trânsito em grande escala de drogas sintéticas na África também estimulam o consumo local, o que preocupa as autoridades da Nigéria e do sul do continente.

“Com frequência, os intermediários são pagos com drogas, e não apenas com dinheiro, e depois precisam colocar esse produto nos mercados locais”, afirmou Antonio De Vivo, chefe do escritório de Maputo do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC).

Paulo Ferrao, de 27 anos, ex-dependente químico que trabalha em um centro de desintoxicação perto de Maputo, testemunha os danos causados pela metanfetamina cristalina no local.

“Estamos recebendo mais casos relacionados à metanfetamina, o que significa que a heroína já não é suficiente para aqueles que estão por trás do tráfico de drogas”, afirmou Ferrao.

AFP

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