FOLHAPRESS
O dirigente opositor venezuelano Juan Pablo Guanipa voltou a ser preso horas depois de sair da prisão neste domingo (8). Durante sua soltura, que durou menos de 12 horas, ele percorreu Caracas de motocicleta, se reuniu com familiares de presos políticos e pediu novas eleições.
Guanipa é um aliado próximo de María Corina Machado, líder da oposição e vencedora do prêmio Nobel da Paz. Nesta segunda-feira (9), ela denunciou que o ex-deputado havia sido sequestrado -mas reafirmou que, apesar disso, ainda pretende voltar à Venezuela.
“Essa é a prova de que não enfrentamos apenas um regime criminoso, mas um regime que tem horror à verdade, que teme o cidadão”, disse María Corina a jornalistas em Washington, nos Estados Unidos. Segundo ela, Guanipa foi vítima de “desaparecimento forçado”.
Em nota, o Ministério Público da Venezuela, controlado pela ditadura, informou ter pedido a prisão domiciliar de Guanipa por descumprir as condições da liberdade. Muitos dos presos políticos libertados desde a captura de Nicolás Maduro pelos EUA estão proibidos de fazer pronunciamentos públicos.
Logo após sua soltura, Guanipa participou de uma motociata que terminou em frente ao Helicoide, notório centro de detenção em Caracas conhecido por denúncias de tortura. Lá, ele abraçou familiares de presos políticos e deu um discurso, dizendo que a Venezuela precisa de eleições.
“Acredito que tudo isso tem que terminar com o respeito à vontade do povo venezuelano”, disse o ex-deputado à AFP no domingo. “Em 2024, o povo se manifestou, houve uma decisão popular. É lógico que ela deve ser respeitada.”
Apesar do comunicado do Ministério Público, a família de Guanipa disse que ele foi “sequestrado” por homens fortemente armados e que não tem notícias de seu paradeiro. O líder opositor Edmundo González, ex-diplomata que afirma ter vencido as eleições de 2024, pediu que o regime forneça prova de vida.
O procurador-geral da Venezuela, Tarek Saab, justificou a prisão domiciliar. “Ele saiu falando e ameaçando”, disse Saab à AFP. “Violou as medidas cautelares que proibiam-no de se expressar.”
Entretanto, o filho de Guanipa, Ramón, disse que o documento de soltura do pai não mencionava restrição alguma a não ser uma proibição de que saísse do país. “Falar não é crime”, disse Ramón.
Guanipa é um dos mais importantes dirigentes opositores ainda preso na Venezuela. Sua breve soltura antecipava a aprovação de uma lei de anistia geral nesta terça-feira (10), que em teoria resultará na libertação de todos os presos políticos.
Na segunda, o ministro do Interior da Venezuela, Diosdado Cabello, falou em “estupidez” da oposição.
Sem citar Guanipa, Cabello, conhecido como o chefe da repressão no país, disse que “uma pessoa foi presa novamente por violar as condições de sua liberdade. Estava tudo bem até que a estupidez de alguns políticos fez com que achassem que podiam fazer o que bem entendessem”.
Outros dirigentes próximos a María Corina também haviam sido soltos neste domingo. A ONG Foro Penal, especializada na defesa de presos políticos, verificou 35 novas solturas. Segundo seus dados, são cerca de 400 libertações desde 8 de janeiro, quando a líder interina Delcy Rodríguez anunciou um primeiro processo de solturas.
Guanipa estava preso desde 23 de maio de 2025, quando foi acusado de comandar uma suposta conspiração contra a eleição de governadores e deputados ao Parlamento. Ele foi vice-presidente do Parlamento e governador eleito do estado de Zulia, mas se recusou a tomar posse perante uma Assembleia Constituinte instaurada por Maduro e foi destituído.
Sua última aparição pública havia sido em 9 de janeiro de 2025 para acompanhar María Corina a um protesto.
Perkins Rocha, assessor jurídico de Machado e delegado da maior coalizão opositora do país, também foi solto no domingo com medidas cautelares “muito estritas”, indicou sua esposa, María Constanza Cipriani, em sua conta no X. “Agora advogamos pela liberdade plena”, acrescentou, junto a uma fotografia de ambos.