Em meio à polêmica desvalorização, os responsáveis da corporação elétrica venezuelana informaram hoje em diversos estados sobre os cortes de abastecimento, que passam a valer nesta terça-feira.
O ministro para a Energia Elétrica, Ángel Rodríguez, disse que se as medidas não forem aplicadas, a queda nos níveis do reservatório de Guri, responsável por 70% da provisão elétrica da Venezuela, conduziria o país a uma situação “crítica” no final de fevereiro.
As medidas de corte de provisão de até quatro horas afetam a partir de hoje estados como o de Zulia (noroeste) e serão aplicadas a partir de amanhã em Caracas, por setores.
O novo plano é implantado no dia seguinte à desvalorização do bolívar, medida que, para a oposição venezuelana, é uma das consequências da atitude “irresponsável e incapaz” do Governo Hugo Chávez.
Nesta segunda-feira entrou em vigor o novo sistema de câmbio, controlado com taxas de 2,6 e 4,3 bolívares por dólar, em meio a uma persistente incerteza sobre os reais efeitos da medida na economia do país.
A Mesa de Unidade Democrática, bloco que reúne 11 partidos da oposição, voltou hoje a expressar sua rejeição à paridade dupla da moeda e convocou uma manifestação cívica em Caracas para o dia 23 de janeiro em defesa da democracia.
A manifestação opositora, convocada para o dia do 52º aniversário da queda da ditadura de Marcos Pérez Jiménez (1914-2001), partirá de vários pontos de Caracas e culminará no bairro popular de Petare, como explicou em coletiva de imprensa o prefeito da capital, Antonio Ledezma.
A oposição venezuelana se retirou na última hora das eleições parlamentares de 2005. Assim, a Assembleia Nacional (AN) ficou nas mãos do Governo, apesar de nos últimos anos cerca de dez deputados terem se juntado aos opositores.
As eleições para renovar o Parlamento (unicameral) venezuelano estão programadas para o próximo dia 26 de setembro.
Na mesma entrevista coletiva, o secretário-geral do partido Ação Democrática (AD), Henry Ramos, criticou o Governo de Chávez, a quem acusou de ser “irresponsável e ladrão” por afundar o país em uma crise social e econômica.
Desde que Chávez anunciou a desvalorização, na sexta-feira passada, houve várias críticas da oposição, que acusa o Governo de se beneficiar desse sistema em ano eleitoral, e de analistas, que preveem mais inflação em um país que fechou 2009 com índice de 25,1%.
O presidente Hugo Chávez, no poder desde 1999, registrou em 2009 uma “tendência negativa” em sua popularidade devido à crise econômica, disse à Agência Efe o analista Luis Vicente León, diretor do instituto Datanálisis.
No ano passado chegou a ter 47% de aprovação, segundo León, que lembrou que em novembro a popularidade do presidente cresceu, embora não tenha alcançado “os picos” de outros tempos.
O analista explica que, devido aos problemas elétrico e financeiro, foi gerada uma percepção econômica negativa, e por isso a popularidade de Chávez voltou a diminuir. “O país está dividido em duas partes”, destacou.
O diretor do Datanálisis também lembrou que “o impacto da desvalorização” ainda deve ser medido, dado que a decisão é recente, mas que a mesma trará junto outras medidas, como o “aumento do gasto público”, o que poderia atenuar a rejeição.
Segundo ele, a oposição conta agora com “um campo eleitoral fértil para cultivar, mas não há um processo de capitalização” de opositores ao Governo.
A falta de precisões sobre a desvalorização, depois da entrada em vigor ontem do novo sistema de câmbio, semeou incerteza em várias áreas do campo econômico venezuelano.
Uma casa de câmbio com escritório no aeroporto internacional de Maiquetía modificou duas vezes suas cotações nas últimas 24 horas.
No início da tarde de terça-feira, apareciam no site dessa casa cotações de 4,3 para a compra de dólares e de 2,6 para a venda, enquanto o valor do euro estava inferior à compra da moeda americana.