CLÁUDIA COLLUCCI
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
O primeiro ano do segundo mandato de Donald Trump marca o maior recuo dos Estados Unidos em décadas de ajuda internacional de saúde, com efeitos que já se fazem sentir em hospitais, campos de refugiados e programas de combate a doenças na África, no Oriente Médio e no sul da Ásia.
Aos cortes bilionários nos programas da Usaid, agência de ajuda externa dos EUA extinta oficialmente em julho passado, soma-se a retirada americana da OMS (Organização Mundial da Saúde), iniciada logo após Trump ter tomado posse, em 20 de janeiro de 2025. O processo dura um ano e termina nesta semana.
Na última terça (13), o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, disse que a retirada tornará os EUA e o mundo menos seguros. “Lamento profundamente essa decisão. A retirada da OMS é uma perda para os Estados Unidos e para o resto do mundo. Não é a decisão certa”, afirmou Tedros em entrevista à imprensa, em Genebra.
A saída oficial dos EUA da OMS ocorre no mesmo momento em que estudos mostram que os cortes promovidos por Trump na ajuda internacional já estão tendo impacto sobre a mortalidade em países pobres.
Uma pesquisa do CEPR (Center for Economic and Policy Research), publicada em dezembro de 2025, indica que a retração do financiamento americano pode estar associada a um número de mortes adicionais entre 500 mil e 1 milhão em 2025. O valor pode chegar a 1,6 milhão por ano se os compromissos futuros de gasto não forem retomados.
Os Estados Unidos seguem sendo, em termos absolutos, o maior financiador mundial de saúde global e assistência humanitária. Em janeiro de 2025, a Casa Branca anunciou uma “pausa” nos desembolsos da Usaid, seguida pelo cancelamento em massa de convênios e contratos, formalizados pelo secretário de Estado, Marco Rubio.
A decisão, justificada como um esforço para eliminar desperdícios e ônus ao povo americano, desorganizou cadeias globais de fornecimento de medicamentos, alimentos terapêuticos e serviços de emergência.
Nas últimas semanas, o Departamento de Estado dos EUA informou que negociou acordos com 16 países africanos para fornecer mais de 11 bilhões de dólares em ajuda à saúde nos próximos cinco anos, em um novo modelo de auxílio que substitui o que era oferecido pela Usaid e que está condicionado a um compromisso de cofinanciamento do país parceiro.
Enquanto isso, os efeitos combinados dos cortes e do isolamento institucional em 2025 já são visíveis. Convênios cancelados pela Usaid sustentavam, por exemplo, o tratamento antirretroviral (HIV/Aids) de 2,3 milhões de pessoas, segundo estimativas do CEPR.
A Unaids, agência da ONU que lidera a resposta global contra a epidemia de Aids, calcula que, até 2029, os cortes na ajuda possam resultar em 6,6 milhões de novas infecções, 4,2 milhões de mortes relacionadas à Aids e 3 milhões de crianças órfãs.
O enfrentamento da tuberculose, apesar de menos visível no debate público, também pode sofrer impactos severos. Os EUA são um dos maiores financiadores de ações contra a doença, com aportes anuais entre US$ 200 milhões e US$ 250 milhões até 2024.
Segundo Sara Davis, professora do Centro de Metodologia Interdisciplinares, da Universidade de Warwick, a interrupção do apoio afetou simultaneamente países de alta carga da doença, com falhas em cadeias de suprimento de medicamentos e diagnósticos. “Modelos preveem 62 mil mortes adicionais, além do aumento do risco de cepas resistentes devido a tratamentos incompletos”, afirma.
No Iêmen, o fim do apoio americano ao PMA (Programa Mundial de Alimentos) deixou 2,4 milhões de pessoas sem assistência alimentar e interrompeu o atendimento nutricional de 100 mil crianças, segundo o CEPR.
Também há relatos de aumento de mortes por desnutrição no norte da Nigéria, na Somália e em campos de refugiados rohingya, em Bangladesh, além de surtos de malária em Camarões e riscos de retrocesso no combate ao HIV em países do sul da África.
O estudo do CEPR mostra que, em 2025, os gastos dos EUA com saúde global ficaram 33% abaixo dos níveis de 2024, enquanto a ajuda humanitária e alimentar encolheu 58%.
Considerando o custo médio para salvar uma vida US$ 3.457 nos programas de saúde e US$ 17.837 na ajuda humanitária a retração do financiamento se traduziria em centenas de milhares de mortes evitáveis.
Mesmo onde houve tentativa de preservar programas vitais, a paralisia administrativa provocou impacto severo. Entre janeiro de 2025 e o fim do ano fiscal, apenas um grande novo contrato de ajuda emergencial foi assinado: um repasse de US$ 30 milhões para a Fundação Humanitária de Gaza. O órgão foi criticado por entidades como os Médicos Sem Fronteiras por sua atuação no território e ligações com ataques israelenses contra civis palestinos.
Em um mundo marcado por guerras, crises alimentares e deslocamentos forçados, a ausência de novos convênios se tornou tão letal quanto os cancelamentos. De acordo com o estudo do CEPR, a combinação de cortes orçamentários, ruptura institucional e colapso de cadeias globais de fornecimento cria uma tempestade perfeita, cujo impacto real ainda é incerto porque faltam dados sistemáticos de campo.
Os sistemas de monitoramento de programas como malária e HIV, por exemplo, estão fora do ar ou desatualizados. “Não sabemos exatamente quantas pessoas já morreram por causa dessas decisões”, escrevem os pesquisadores Charles Kenny e Justin Sandefur, do CEPR. “Mas há pouca dúvida de que muitas já morreram e, sem uma mudança de rumo, muitas mais morrerão.”
Para Tedros, os custos da retirada dos EUA da agência e dos cortes de ajuda internacional não são apenas questões financeiras. “Não se trata de dinheiro. Trata-se de cooperação, de solidariedade. A melhor imunidade é a solidariedade”, afirmou.