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Conflito no Oriente Médio: petróleo vira arma econômica e pressiona o Brasil, diz economista

Escalada no Oriente Médio coloca Estreito de Ormuz no centro da crise e pressiona petróleo, dólar e inflação

Redação Jornal de Brasília

04/03/2026 18h35

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Foto: Reprodução/Redes Sociais/República do Irã

Redação Jornal de Brasília/Agência UniCeub
Por Bel Villela, Mari Mergener, Mateus Péres e Madu Suhet


Os bombardeios no Oriente Médio, a partir do ataque dos Estados Unidos ao Irã, reiniciados em 28 de fevereiro de 2026, reacenderam um temor histórico e colocaram o Estreito de Ormuz no centro da geopolítica global. A passagem marítima é um dos principais locais de escoamento de petróleo, onde se concentra 20% a 25% do fluxo mundial.

Desde as crises petrolíferas da década de 70, o Irã já ameaçou, ao menos cinco vezes, fechar o estreito.

Desta vez ainda que Washington negue e Teerã sustente a ameaça, este simples ruído já causa efeitos reais. Para o economista e professor de relações internacionais do CEUB, Marcelo Valle, o impacto começa antes de qualquer decisão formal. 

“A verdade é que só essa que só essa essa controvérsia já é suficiente para reduzir o fluxo de de de navios naquela região do Oriente Médio. E isso vai gerar um desequilíbrio entre a oferta e a demanda mundial de petróleo, o que tende a forçar os preços do petróleo para cima”, afirmou.

Ele exemplificou com o valor do petróleo. O barril que estava na faixa dos 70 dólares, agora alcançou a marca de 80 dólares e pode chegar a 100 dólares.

Produto essencial

O petróleo ocupa um papel essencial na economia, apesar da grande produção, ele não é facilmente substituído. “Você precisa continuar comprando porque ele não tem bons substitutos”, pontuou o pesquisador.

O resultado da compra gera inflação na economia mundial e brasileira. Ele tende a encarecer o custo da gasolina, produtos alimentícios e produção industrial. 

“Gera a inflação global. Vai gerar também a inflação do Brasil, claro, como o seu produto. Então, isso traz impactos negativos sobre a inflação, traz impactos negativos para a própria atividade econômica do mundo e tende a reordenar investimentos”, disse o professor.

Ganho Ilusório

Embora o Brasil seja um grande produtor de petróleo, os benefícios da alta internacional são limitados. O meio produtivo e a cadeia consumidora interna, dificultam os ganhos.

 “O Brasil é um grande produtor de petróleo, mas ele exporta pouco, comparado ao que ele produz. O petróleo brasileiro, ele é um petróleo, como ele é tirado de plataforma marítima, ele tem uma quantidade, quer dizer, a relação de hidrocarbonetos dele não é tão eficiente quanto a do petróleo retirado de terra, como é feito no Oriente Médio. Então, ainda que o Brasil pudesse se beneficiar da exportação, na prática isso não ocorre”, explica.

Além disso, existem vários tipos de derivados de petróleo que não são produzidos em solo nacional. Por esse motivo, apesar da grande produção, o Brasil ainda é refém de importações.

“Então, tem várias, embora quando a gente coloque o nosso consumo de petróleo e a nossa produção sugerir a ideia que nós somos auto suficientes, o Brasil precisa comprar muito petróleo de maior qualidade, de maior octanagem. Por exemplo, eh querosene de aviação, isso o Brasil produz pouco”, conclui.

Juros sob pressão

 O Brasil vive um momento econômico ambíguo, com crescimento do PIB em 2,3% e a taxa de desemprego em 5%. Apesar disso, a percepção de melhora na sociedade não é presente.

“Então, você diz para a sociedade: “Olha, a economia está bem, a sociedade diz: Eu não estou sentindo”. Porque a sociedade tá com altos níveis de endividamento, né, e taxa de juros elevada, consome esses potenciais ganhos”, analisou.

Com a Selic em 15% ao ano, qualquer nova pressão inflacionária pode levar o banco central a endurecer ainda mais a política monetária. Esse movimento pode “comprimir a economia”.

“Para controlar isso, a política mais comum do Banco Central é elevar a taxa Selic. Com isso, você comprime ainda mais a economia. Inibe investimentos, compras em longo prazo, então a economia entra num compasso de recessão”, disse. 

Impacto no dólar

A alteração no câmbio é uma das principais consequências do conflito no Oriente Médio. Com incertezas no cenário do mercado internacional, a população tende a querer proteger seus bens e investimentos através de uma moeda mais valorizada, como o dólar. 

“No mercado internacional, o real não tem grande valor, mas o dólar tem. Então começa a haver uma busca por dólares. E aí, como qualquer outro ativo no mercado, você tem uma oferta menor para uma demanda grande, muita gente querendo proteger os seus investimentos utilizando o dólar como referência”, comenta.

O valor do dólar no Brasil tende a aumentar visto que grande parte da importação no Brasil é baseada na moeda americana, isso gera impacto na inflação mundial.

“O dólar no Brasil que estava sendo vendido a 5,14 e 5,15 na semana passada, hoje já fechou a 5,28 e a expectativa é que suba mais. Então, como muita da nossa pauta de importação em dólar, né, isso, hã, traz também um impacto sobre a inflação”, cita o economista.

Com o câmbio pressionado, as importações ficam mais caras e o impacto inflacionário se intensifica. O conflito, portanto, deixa de ser apenas diplomático e passa a interferir diretamente no custo de vida.

Mediação do Brasil

O avanço do conflito também coloca à prova o papel diplomático do Brasil em âmbito internacional. O presidente Lula, por defender o multilateralismo e ser a favor da ONU como foro legítimo ao recusar o convite do Conselho de Paz proposto por Trump, perde espaço de influência.

Apesar de possuir papéis importante em anos anteriores, como em 2010, onde assinou um acordo com o Irã sobre transparência acerca do enriquecimento de Urânio, o cenário é diferente com a escalada do conflito e participação de potências globais.

“Eu entendo que o Brasil perde um pouco de espaço nesse campo de mediação. Eu penso que o Brasil perde um pouco da sua capacidade de exercer influência, não só pelo não aceite ou provável não aceite de fazer parte desse grupo proposto pelo Trump, mas porque também a postura do Brasil tende a não se alinhar automaticamente com os Estados Unidos e nem com Israel”, disse.

Além disso, a crítica ao governo de Israel no conflito na Faixa de Gaza, é explícita por parte do Brasil, o que dificulta mais ainda uma possível mediação entre os lados do conflito.

“O Brasil tem tido ao longo dos últimos anos até um certo desgaste diplomático com Israel, exatamente porque o Brasil fez uma crítica muito explícita à ação do governo de Israel no conflito na Faixa de Gaza. Então, penso que nesse momento, sim, o Brasil perca um pouco de sua capacidade de influência”, concluiu.

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