O polêmico comboio alemão carregado de resíduos radioativos chegou nesta terça-feira a seu destino final, o depósito de lixo atômico de Gorleben, ao norte da Alemanha, após quatro dias de protestos, choques violentos com a Polícia e uma acirrada briga política.
Após 92 horas para atravessar uma distância de 1,6 quilômetros, o comboio com 123 toneladas de lixo atômico dividido em 11 contêineres especiais chegou ao depósito de Gorleben às 9h45 hora local (6h45 no horário de Brasília).
A carga radioativa realizou os últimos 20 quilômetros de sua rota por terra em um pouco mais de uma hora, com a caravana de caminhões circulando com extrema precaução entre um enorme desdobramento policial em alerta máximo.
Para atravessar esta última etapa, as forças de segurança levaram a noite toda para dissolver o último bloqueio que estava no local há 48 horas e que era formado por, aproximadamente, três mil ativistas antinucleares.
Os organizadores qualificaram de “grande sucesso” o protesto, que causou o maior atraso de uma transferência de contêineres e que reuniu, neste fim de semana em Dannenberg, localidade mais próxima a Gorleben, cerca de 50 mil pessoas, o que supõe a maior concentração antinuclear em três décadas.
“Trata-se de um grande êxito. Fizemos bloqueios enormes e uma manifestação como nunca se tinha visto”, assinalou Jochen Stay, um dos líderes do protesto. Os manifestantes usaram desde tratores a rebanhos de ovelhas e cabras para tentar atrapalhar o trajeto.
Em sua opinião, esta iniciativa mostra a crescente “distância entre Governo e povo”, e dá um novo “impulso ao movimento antinuclear” e “esperança” de que em algum momento o objetivo de que o país deixe de empregar energia atômica aconteça.
A oposição política alemã criticou com dureza o Executivo de centro-direita liderado por Angela Merkel, que segue se amparando na “necessidade sem alternativas” de utilização dos resíduos produzidos pela energia nuclear nacional.
Voltaram a criticar a recente decisão do Governo de prolongar a vida útil das usinas nucleares do país em uma média de 12 anos e a transferência de resíduos para Gorleben, que funciona há 20 anos apesar de ser um local temporário.
Renate Künast, porta-voz dos Verdes no Parlamento, destacou as manifestações e os bloqueios pacíficos das vias como “algo especial” e criticou o Governo por manter um “conflito sem oferecer soluções” e por “se esconder atrás da Polícia”.
Sigmar Gabriel, presidente do SPD, argumentou que os cidadãos “foram às ruas” porque “Angela Merkel reabriu um conflito social” sobre o qual seu partido havia alcançado um consenso há uma década.
Em setembro, o Governo aprovou a ampliação da vida útil das 17 usinas nucleares – oito anos para as mais antigas e 14 para as mais modernas -, revogando o acordo de 2000, segundo o qual a última central na Alemanha deveria ser fechada em 2021.
O polêmico comboio de lixo radioativo partiu na sexta-feira da usina de reprocessamento de La Hague (França) e no sábado, ao meio-dia, cruzou a fronteira com a Alemanha.
Depois disso, os ativistas intensificaram suas ações e conseguiram bloquear ou desviar em dezenas de ocasiões a passagem do comboio.
Além disso, nos arredores de Dannenberg, aconteceram, no domingo, violentos enfrentamentos entre Polícia e ativistas, que tentavam invadir as vias, um choque que deixou cerca de mil pessoas feridas, segundo os manifestantes.
As forças de segurança usaram canhões de água, cassetetes e gás lacrimogêneo para afastar os manifestantes, que por sua vez jogaram pedras, bengalas e coquetéis molotov, além disso, atearam fogo em um veículo policial.
Apesar de deter temporariamente centenas de manifestantes, a Polícia só prendeu oito pessoas e fichou outras 123 relacionadas a estes incidentes.