JOSÉ HENRIQUE MARIANTE
FOLHAPRESS
A pior semana do governo Keir Starmer terminará neste sábado (16) com uma manifestação de ultradireita nas ruas de Londres. O evento preocupa Downing Street a ponto de o primeiro-ministro, nesta sexta-feira (15), ter cumprido sua primeira agenda pública após a rebelião dentro do próprio partido no comando da Metropolitan Police.
“Estamos travando uma batalha pela alma deste país, e a marcha Unite the Kingdom deste fim de semana é um forte lembrete do que estamos enfrentando exatamente”, declarou o premiê durante a visita. “Seus organizadores estão incitando o ódio e a divisão.”
Starmer está em uma batalha de sobrevivência política desde a semana passada, quando o Partido Trabalhista sofreu uma derrota histórica nas chamadas eleições locais. A legenda perdeu mais de 1.400 em conselhos e distritos, número equivalente ao ganho inédito alcançado pelo Reform UK, do populista Nigel Farage.
Farage, representação política e histriônica do extremismo de direita britânico, é quase um moderado perto do organizador da marcha, Tommy Robinson, ativista anti-imigração e islamofóbico, que promete “o maior evento da história do Reino Unido” neste fim de semana.
No ano passado, Robinson, descrito muitas vezes como um hooligan político, com passagens pela prisão e cujo nome verdadeiro é Stephen Yaxley-Lennon, reuniu mais de 100 mil pessoas no centro da capital, pressionando o gabinete de Starmer a tomar decisões relacionadas à imigração, o principal mote do protesto. Houve confronto com a polícia, que deteve vários manifestantes e, depois, manteve 23 presos.
Desta vez, o ativista pediu moderação a seus apoiadores. Terá que pedi-la também aos convidados que chamou para falar durante o ato, pois poderá ser preso se algum deles proferir discurso de ódio ou extremismo ilegal. Pela primeira vez também a polícia usará um sistema de reconhecimento facial para detectar em Camden, bairro onde se dará a concentração do protesto, indivíduos com potencial de “ameaça à segurança pública”.
O aparato não será usado em outra manifestação marcada para a cidade neste sábado, o Nakba Day, que lembra o exôdo palestino forçado de 1948, exceção que fez políticos de direita protestarem. “O fato de estar sendo aplicada uma justiça de dois pesos e duas medidas contra britânicos patriotas é vergonhoso”, escreveu Farage no X.
O veto a discursos de ódio, porém, estará igualmente em vigor. Críticas a Israel, que não deverão ser poucas no protesto, tem enorme potencial para confusão, como vem ocorrendo em diversas partes da Europa. Em Londres, gritar “intifada” ou “morte ao IDF” poderá render prisão e processo. A Met Police ganhou esse poder a partir de ajustes na legislação que integram um pacote antissemitismo mais amplo do governo.
“Se houver discurso de ódio durante as manifestações, nós, a polícia, interviremos imediatamente junto ao orador. Nossas condições atribuem responsabilidade tanto ao organizador quanto ao palestrante”, declarou James Harman, comissário-assistente da Met Police, ao jornal The Guardian.
Será a maior operação de segurança na capital inglesa em anos, com a mobilização de 4.000 agentes e diversos tipos de equipamentos. O custo deve chegar a £ 4,5 milhões (R$ 30 milhões), segundo a imprensa britânica.
O alto investimento reflete preocupações do governo e da polícia, segundo Harman, após “uma campanha contínua de incêndios criminosos contra judeus londrinos” e “uma preocupação crescente, mais ampla, inclusive em comunidades muçulmanas”.
Do outro lado, estrangeiros estão na mira das autoridades, sendo que 11 foram formalmente barrados.
Convidados por Robinson, figuras como Valentina Gomez, influencer do movimento Maga, e Joey Mannarino, comentarista de extrema direita dos EUA, conhecido pelo discurso misógino, foram proibidos de entrar no Reino Unido nesta semana.
“Meu governo sempre defenderá os protestos pacíficos, mas agirá com firmeza contra o ódio. Todos nós temos a responsabilidade de nos manifestar contra aqueles que propagam opiniões odiosas e divisivas, onde quer que as encontremos”, afirmou Starmer durante a visita ao centro de comando.
Para completar o sábado agitado da capital britânica, Chelsea e Manchester City disputam a final da Copa da Inglaterra em Wembley. Ainda que mobilize contingente, a partida não é a maior preocupação, mas a ausência de uma rodada regular da Premier League: sem jogos, sobram mais hooligans nas ruas para engrossar a manifestação de Robinson.