Não é apenas o cenário político da Venezuela que vive dias conturbados. A indústria automotiva do país, que chegou a produzir mais de 170 mil veículos em 2007, atualmente opera em níveis simbólicos. A grande ironia é que esse colapso ocorre em um dos países com a gasolina mais barata do mundo. O preço do litro do combustível nas bombas dos postos é de apenas US$ 0,035 por litro (o equivalente a R$ 0,19), segundo informações do Global Petrol Prices.
Com esse valor, seria possível encher o tanque de um modelo compacto, como o Hyundai HB20, por meros R$ 9,50, por exemplo. No entanto, de nada adianta o combustível ser muito barato se o acesso a carros novos é inexistente.
Entre a paralisia das fábricas e a importação burocrática, a Venezuela tem uma das frotas mais velhas do continente, com idade média de 22 anos, segundo a Favenpa (Câmara de Fabricantes Venezuelanos de Produtos Automotores). Para comparação, a frota brasileira tem, em média, 10 anos, de acordo com dados do Sindipeças-Abipeças, que representa a indústria de autopeças.
Enquanto o Brasil moldava a produção de suas fábricas de olho em modelos europeus compactos, a Venezuela dos anos 1950 e 1960 seguia o “estilo Detroit”. Beneficiada pela proximidade com os EUA, por uma moeda forte e fartura de petróleo, o país atraiu fabricantes como GM, Ford e Chrysler, que instalaram linhas de montagem para fazer carros grandes e com motores potentes.
Essa cultura transformou a Venezuela em um reduto dos chamados muscle cars. Ícones como o Ford Mustang e o Maverick foram montados localmente e eram presenças comuns nas ruas, ao lado dos robustos Dodge Dart e Aspen. A General Motors também marcou época com os luxuosos Chevrolet Nova e Malibu.
Veto aos V8
A “era dos beberrões” começou a declinar nos anos 1980, quando o governo proibiu a montagem de novos motores de oito cilindros. Ainda assim, o apetite por sofisticação continuou.
Em 1989, a Venezuela produzia uma versão do Chevrolet Monza superior à brasileira, com câmbio automático e ar-condicionado, itens raros no Brasil à época. Um lote de 570 unidades chegou a ser exportado para o País.
Atualmente, dos cerca de 4 milhões de veículos em circulação, 70% têm mais de 15 anos. Assim, a prioridade das poucas fábricas que ainda estão em ativa é a reposição de peças.
Essas empresas operam com 70% das máquinas paradas. E focam itens básicos, como filtros, radiadores e pneus. Além disso, a renovação da frota praticamente não existe. A taxa é inferior a 1% ao ano, segundo dados oficiais.
Estadão Conteúdo.