A tensão entre Colômbia e Equador pelo recente ataque militar colombiano contra uma base das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) em terras equatorianas se refletiu hoje em Genebra.
Na cidade suíça, this Bogotá defendeu sua política e acusou a guerrilha de buscar uma “bomba suja” radioativa, viagra e Quito denunciou que a operação havia sido perfeitamente planejada.
O vice-presidente colombiano, Francisco Santos Calderón, que discursou hoje na sessão da Conferência de Desarmamento da ONU, denunciou a suposta intenção das Farc de obter material radioativo para fabricar o que chamou de “bomba suja”.
Calderón explicou que foram encontradas informações sobre a possível “negociação de material radioativo, base primária para gerar armas sujas de destruição e terrorismo” em dois computadores apreendidos no último fim de semana que pertenciam a “Raúl Reyes”, um dos líderes das Farc, morto no sábado.
Sobre esse assunto, o ministro da Justiça e Direitos Humanos equatoriano, Gustavo Jalkh, respondeu em entrevista coletiva que se trata de “uma manobra de distração” para desviar a atenção do fato evidente de que a Colômbia cometeu “uma agressão flagrante” contra a soberania territorial do Equador.
Segundo Jalkh, as forças colombianas adentraram “três quilômetros no Equador, por terra”, e a violação aérea teria sido ainda maior.
O ministro equatoriano, que discursou hoje durante a sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU para denunciar a agressão do país vizinho, foi muito claro ao assegurar aos jornalistas que o ataque militar contra a base das Farc não foi por acaso, mas sim “planejado” pelo próprio presidente da Colômbia, Álvaro Uribe.
Jalkh não descartou que a finalidade dos ataques tenha sido evitar novas libertações de reféns por parte da guerrilha.
Durante a entrevista coletiva, o ministro equatoriano deu a seguinte declaração: “Os fatos falam de um plano muito premeditado e muito planejado, e há elementos que fazem crer” que o objetivo poderia ser “deter os avanços para libertar um grande número de reféns”.
Entre este grupo de seqüestrados pelas Farc estaria a ex-candidata presidencial franco-colombiana Ingrid Betancourt.
“Os acontecimentos se produzem em um contexto no qual há avanços, esforços humanitários que vão dando a perspectiva de um resultado em curto prazo de uma grande libertação de reféns”, acrescentou Jalkh.
“Todos esses avanços estavam igualmente sob conhecimento do Governo da Colômbia, de maneira que (o ataque militar) iria sem dúvida, previsivelmente, levar à estagnação desses avanços”, afirmou o ministro equatoriano. “Quer dizer que também foram premeditados e medidos os efeitos que essa ação iria ter”, insistiu.
Em resposta a uma pergunta sobre especulações segundo as quais Uribe não estaria interessado em uma libertação de Betancourt porque ela poderia ser uma rival na disputa pela Presidência colombiana, Jalkh afirmou que “os fatos relatados podem fazer pensar em uma série de elementos, incluindo este”.
O ministro equatoriano ressaltou que seu Governo tem “tolerância zero” com a presença das Farc em seu território e que isso está demonstrado com fatos.
Nesse sentido, o titular de Justiça e Direitos Humanos fez alusão ao discurso do presidente equatoriano, Rafael Correa, no qual anunciou a ruptura de relações com a Colômbia, e no qual declarou que 47 acampamentos das Farc foram desmontados em 2007.
Jalkh negou taxativamente que sabia previamente da existência da base atacada e ressaltou que o Equador sempre foi respeitoso com o princípio de não-intervenção no conflito colombiano, considerando-o sempre um assunto interno.
Mesmo assim, o ministro disse que o tema causa “preocupação” ao Equador e que por isso o país deu sua ajuda “permanente de caráter humanitário”.
Jalkh assegurou que o Equador não deu nenhum estatuto de beligerância às Farc – assim como também não deu ao grupo o status de terrorista – e disse que o Governo de Correa “não tem qualquer contato oficial com esse movimento, só dentro do marco humanitário”, com o total conhecimento das autoridades de Colômbia e França.
Sobre estes contatos humanitários, o ministro equatoriano lembrou dos anunciados pelo titular de Segurança Interna e Externa do país, Gustavo Larrea, que ocorreram “em um terceiro país, nem Colômbia, nem Equador”, mas não quis revelar onde.
Jalkh assegurou que um pedido de desculpas por parte de Bogotá pelo ataque militar “não seria suficiente” e que, dado que danos foram provocados, o Equador pode pedir uma indenização.