Menu
Mundo

Cineasta brasiliense foi testemunha ocular do 11 Setembro

Arquivo Geral

03/09/2011 9h00

< !--[if gte mso 9]> Normal 0 21 false false false PT-BR X-NONE X-NONE < ![endif]-- >< !--[if gte mso 9]> < ![endif]-- >< !--[if gte mso 10]>

< ![endif]-- >

Felipe Romero
felipe.romero@clicabrasilia.com.br


Foto: Renato Araujo

 

O cineasta João Paulo Procópio, 31 anos, estava em Nova York em setembro de 2001 para fazer cursos de inglês e cinema na cidade norte-americana. Sobrinho de uma funcionária do consulado, a cidade era destino comum nas férias. No dia 9 de setembro, foi com um amigo, morador da cidade, tirar fotos da região de Manhattan, registrando pontos turísticos e tradicionais da região. Registraram a ponte do Brooklyn, a Estátua da Liberdade e o World Trade Center (WTC).  As fotos ficaram como registro da última visita de João Paulo às Torres Gêmeas.

 

Dois dias depois da sessão de fotos, o cineasta foi surpreendido por um telefonema de sua avó, falando sobre o choque de um avião contra uma das torres do WTC. O apartamento onde estava hospedado fica com a janela virada para o lado oposto a área do ataque. Até então o estudante não sabia de nada do que estava acontecendo – como muitos moradores de NY que ficaram sabendo dos ataques pela TV ou família. Procópio decidiu pegar sua câmera fotográfica e ir até o local, acreditando que uma aeronave de pequeno porte havia se chocado contra o prédio. Ao virar a esquina, viu as duas torres em chamas e percebeu que presenciava algo maior do que um acidente aéreo:  “Eu tinha 21 anos, senti certa euforia por presenciar um momento histórico”, relembra.

 

João Paulo começou a tirar fotos a cinco quadras dos prédios. Quando decidiu se aproximar mais, a primeira torre caiu e ele não conseguiu registrar. Eram 10h. Ele conseguiu chegar a duas quadras das Torres Gêmeas e testemunhou pessoas pulando do alto da segunda torre. “Nesse momento, percebi que ali havia mais que aço e concreto. Aquela euforia passou e chorei muito”, relata. Foi também ali que João Paulo decidiu não se aproximar mais. Haveria corpos no chão e ele não quis registrar nem ficar com aquela imagem gravada na memória.

 

Procópio fotografou a queda da segunda torre em uma sequência de fotos que acabou com seu filme fotográfico. Após a queda, decidiu comprar mais filmes e caminhando pelas ruas de Manhattan presenciou uma das imagens que mais o marcou: cerca de cem pessoas estavam em volta de um carro, ouvindo pelo rádio os relatos sobre os ataques. O grupo estava de costas para as torres, concentrados nas notícias sobre o que acontecia a 2 quilômetros deles.

 

Estranhamente, a cidade parecia viver um feriado. O dia estava ensolarado e, sem carros; as ruas estavam livres para caminhar. “O vento soprava a poeira dos escombros para o lado oposto da ilha e as pessoas aparentavam certa tranqüilidade”, lembra o cineasta.

 

João Paulo decidiu voltar ao local para fotografar o resgate das vítimas e os escombros. Após comprar novos rolos de filme, deslocou-se novamente para a área dos ataques. Se durante o desabamento das torres o acesso às ruas aos arredores do WTC estava relativamente tranqüilo, quando o então estudante voltou havia vários bloqueios policiais. “Fui andando pelas ruas evitando as patrulhas policiais e percebi que o lado da margem do rio tinha menos policiamento. Cheguei a me perder pela região até que, ao virar uma esquina, me deparei com os escombros. Custei a acreditar”, conta o cineasta. A tentativa de furar os bloqueios policiais levou 8 horas. “Quando consegui acessar os escombros já era de noite; os corpos de quem havia se jogado dos prédios já haviam sido retirados. Uma vez dentro do bloqueio, todos supostamente estavam autorizados a estar ali.”

Foto: Renato Araujo

No dia seguinte, Procópio voltou ao local e fez novas fotos. “O que mais me marcou nisso tudo foi a solidariedade das pessoas”, lembra. Segundo ele, as pessoas distribuíam desde água até chocolate uns para os outros: “Muitos perderam amigos, familiares. Havia muita gente deprimida nas ruas, e isso de distribuírem chocolates me marcou muito”, destaca. Nos dias seguintes aos ataques continuavam a surgir exemplos de solidariedade, como placas pedindo para as pessoas procurarem bichos de estimação de desaparecidos.

Desde o dia seguinte ao acidente, começaram a acontecer manifestações contra a reação violenta do governo dos Estados Unidos, assim como manifestações contra o racismo dirigido a árabes e islâmicos. Procópio percebeu que as grandes redes de notícias do país não estavam noticiando esses movimentos e decidiu ele mesmo registrar as passeatas. “Havia muita gente pedindo justiça e não revanche, mas isso não aparecia na televisão.”

 

Nos seis meses que Joâo Paulo passou na cidade após o atentado, ele tentou não mudar a rotina: “Tentei não entrar numa paranóia, mas mesmo assim era difícil entrar no metrô e não ficar um pouco apreensivo. Havia um clima de tensão constante na cidade, com revistas freqüentes em acessos a locais públicos.”

 

De volta ao Brasil, João Paulo expôs as fotos que fez na Universidade Católica de Brasília (UCB), onde estudava, e, depois, na Caixa Cultural. Prevista para durar um mês, as fotos ficaram três meses expostas.

 

Procópio voltou a Nova York outras vezes, mas não costuma passar pelo local agora chamado de Ground Zero (Marco Zero). “Voltei ao local para tirar fotos, por conta da exposição. Gosto da cidade por vários motivos. Não sinto angústia quando volto,mas não quero alimentar um possível sentimento ruim.” O cineasta planeja voltar aos Estados Unidos neste ano, mas desta vez para visitar New Orleans.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado