NELSON DE SÁ
PEQUIM, CHINA (FOLHAPRESS)
O vice-primeiro ministro da China, He Lifeng, falou por meia hora com o novo secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, a pedido deste, segundo relato da rede estatal CCTV. He “expressou sérias preocupações em relação às recentes tarifas dos EUA e outras medidas restritivas impostas à China”.
Na versão do Departamento do Tesouro dos EUA, desta vez divulgada depois do pronto relato chinês, Bessent também apresentou “sérias preocupações”, citando fentanil e “desequilíbrios econômicos”. Reafirmou “o compromisso do governo Trump com políticas comerciais que protejam a economia americana e a segurança nacional”.
Antes da conversa, ocorrida no início da noite na China, manhã nos EUA, Bessent havia adiantado à Bloomberg TV que abordaria que “muitos ingredientes de fentanil se originam na China”, referência à atual crise de consumo de drogas nos EUA, e que a sobretarifa de 10% já adotada contra o país se deve a isso. Mas o primeiro ponto a levantar seria “que queremos trabalhar juntos”.
Segundo a CCTV, as duas autoridades realizaram “uma discussão profunda sobre questões econômicas chaves”. O Conselho de Estado, o ministério chinês, acrescentou depois que ambos “reconheceram a importância das relações econômicas e comerciais entre a China e os EUA e concordaram em continuar mantendo comunicação sobre questões de interesse mútuo”.
He, que concentra o debate econômico na cúpula do país, manteve diálogo constante com a antecessora de Bessent no governo Joe Biden, Janet Yellen, e deve seguir no papel nos contatos com o governo Donald Trump.
A conversa foi precedida por declarações do presidente americano, na quarta, respondendo que “é possível, é possível” alcançar um novo acordo comercial com a China, a exemplo daquele assinado durante seu primeiro governo. “Nós os fazíamos comprar cerca de US$ 50 bilhões em nossos produtos”, falou Trump. “O problema é que Biden não os pressionou a aderir a ele.”
De sua parte, o Ministério do Comércio da China havia reafirmado, na quinta, que as ameaças mais recentes de Trump, de adotar “tarifas recíprocas”, são uma “manifestação de protecionismo e unilateralismo”.
O porta-voz do órgão argumentou que “a abordagem dos EUA não só viola as regras da OMC [Organização Mundial do Comércio], mas desrespeita o equilíbrio de interesses alcançado dentro do sistema multilateral de comércio nos últimos 80 anos, bem como o fato de que os EUA há muito se beneficiaram significativamente do comércio internacional”.
Em carta anterior ao novo secretário do Comércio americano, Howard Lutnick, o ministro do Comércio chinês, Wang Wentao, havia afirmado, na mesma direção, que “o movimento dos EUA de impor tarifas sabota a cooperação econômica e comercial entre a China e os EUA”.