A crise política em Honduras e as controvertidas eleições de domingo no país geraram hoje as primeiras discórdias entre os coordenadores dos 22 países que participam da 19ª Cúpula Ibero-Americana.
Os coordenadores e responsáveis de cooperação dos países da América Latina, Espanha, Portugal e Andorra começaram a debater neste sábado os documentos que amanhã serão examinados pelos ministros de Assuntos Exteriores e que na segunda e terça-feira serão discutidos pelos chefes de Estado e de Governo.
Segundo fontes de distintas delegações consultadas pela Agência Efe, nas primeiras reuniões surgiram diferentes visões sobre o pleito convocado para amanhã pelo Governo de fato, que surgiu após a derrocada do chefe de Estado hondurenho Manuel Zelaya.
“Há países que pressionam para que a Cúpula Ibero-Americana tenha um pronunciamento claro em relação ao não reconhecimento das eleições e outros que pensam de forma diferente”, explicou à Agência Efe uma fonte diplomática brasileira.
Outras fontes detalharam que as pressões nesse sentido são lideradas por Venezuela, Cuba, Bolívia, Equador e Nicarágua, entre outros países aliados da Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba), que consideram “ilegítimo” o processo eleitoral em Honduras.
Um porta-voz da Secretaria-Geral Ibero-Americana (Segib) admitiu a Efe que “será muito difícil” um consenso nesse ponto entre os chefes de Estado, pois assim como há países que não reconhecerão as eleições em Honduras outros, sim, o farão.
Essa divergência dificulta a elaboração de um comunicado especial sobre as eleições, que em caso de ser aprovado se somariam a mais sete que foram propostos durante a primeira reunião de coordenadores.
Desses sete textos, dois foram propostos pelo Brasil e se referem à Aliança de Civilizações, iniciativa patrocinada pelo Governo espanhol que foi apresentada em 2004 no encontro da ONU, e à necessidade que a região ibero-americana se una em favor de acordos concretos na Cúpula sobre Mudança Climática de Copenhague.
El Salvador apresentou uma proposta sobre cooperação com países de renda média e outra com relação à luta contra a corrupção.
A Argentina propôs um comunicado especial de apoio à reforma do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e Portugal outro sobre sua candidatura a um posto de membro não-permanente do Conselho de Segurança da ONU para o biênio 2011-2012.
O Equador pediu amparo a sua iniciativa de evitar a extração de petróleo do Parque Nacional Yasuni, reduzindo suas emissões poluentes em troca de ajuda financeiro.
Os coordenadores também abordaram o Plano de Ação para o ano 2010, que segundo a minuta sobre o qual se trabalha tem 64 pontos dos quais 44 já aprovados.
Um deles se refere à realização de estudos sobre a concretização de um Programa Ibero-americano sobre propriedade industrial e promoção do desenvolvimento, com especial atenção às pequenas e médias empresas.
Além disso, os coordenadores aprovaram quase todos os pontos da declaração final da cúpula e ainda deverão debater outros, como a aceitação da Bélgica, Itália e vários organismos internacionais com status de “observadores”.
Outros documentos ainda pendentes estão alguns já debatidos, como a soberania argentina sobre as ilhas Malvinas, a luta contra o terrorismo e o embargo americano a Cuba.
A declaração e os comunicados especiais serão debatidos amanhã pelos ministros das Relações Exteriores. Na segunda e na terça-feira, os chefes de Estado e de Governo ampliarão as discussões sobre os mesmos temas.
A cúpula começará no domingo com um jantar e as ausências confirmadas de diversos líderes: os presidentes da Venezuela, Hugo Chávez, da Bolívia, Evo Morales, do Paraguai, Fernando Lugo, do Uruguai, Tabaré Vázquez, de Cuba, Raúl Castro, e da Guatemala, Álvaro Colom.