Argentina e Brasil defenderam hoje construir uma “agenda positiva” centrada na integração produtiva que, no longo prazo, permita aliviar as “tensões” geradas no último ano em seu comércio bilateral.
Este é um dos principais acordos selados hoje na primeira reunião da comissão ministerial criada em novembro passado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e por sua colega argentina, Cristina Fernández de Kirchner, para resolver as diferenças comerciais.
“Estamos muito satisfeitos com a reunião, com o clima de coordenação e coincidência em diferentes temas, com um resultado muito positivo”, disse em entrevista coletiva o chanceler argentino, Jorge Taiana, ao términou do encontro, ao qual compareceram os ministros de Relações Exteriores, Economia e Indústria dos dois países.
No aspecto mais conflituoso da relação, o das licenças não automáticas que os dois países aplicam desde o ano passado para se proteger dos efeitos da crise global, houve um acordo para analisar a implantação destas medidas caso a caso.
Segundo o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Miguel Jorge, se discutirá “uma possível flexibilização” ou uma “redução dos prazos” de concessão das licenças.
“Não definimos os setores que serão alvo de flexibilidade. Vamos estudar caso a caso. Será um processo de conversa e de negociação”, disse Jorge.
O ministro reconheceu que no ano passado houve reclamações de empresários brasileiros em relação às licenças não automáticas aplicadas pela Argentina, mas assegurou que, desde novembro, após a reunião dos presidentes, “houve um desafogo bastante grande” na tensão.
Para a ministra de Indústria argentina, Débora Giorgi, além desta análise das licenças, o fundamental é estabelecer cadeias de integração produtiva entre os dois países, medida que permitirá “gerar uma mudança qualitativa que eliminará as tensões”.
Esta “agenda positiva”, ressaltou Giorgi, representa estabelecer mecanismos de financiamento às empresas por meio dos bancos públicos, além de iniciativas para buscar mercados de forma conjunta.
Segundo o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, o principal da reunião de hoje é que as partes buscaram “soluções criativas” para suas dificuldades, com os olhos “mais no futuro do que no passado”.
A reunião deu espaço inclusive à análise do cenário global, com um olhar sobre as turbulências nos mercados financeiros devido à situação europeia.
Neste sentido, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que a atual turbulência é “passageira” e não vai impactar na tendência global de aumento da demanda por matérias-primas, algo que beneficia Argentina e Brasil.
Segundo Mantega, os dois países crescerão cerca de 5% neste ano, acima das economias europeias e da americana.
O ministro da Fazenda afirmou que Brasília e Buenos Aires definirão posições para impulsionar reformas nas regulações dos mercados financeiros e nos organismos multilaterais de crédito.
Mantega e seu colega argentino, Amado Boudou, deram especial ênfase à necessidade de uma reforma do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para que seu financiamento chegue aos países da região.
“O banco não teve um desempenho satisfatório para a região, não cumpriu suas funções, e elaboraremos uma proposta de nova gestão mais eficaz para a região”, disse o ministro brasileiro.
A reunião ministerial de hoje serviu também para preparar a próxima visita de Lula a Buenos Aires, que deve acontecer no final de março.