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Bombardeios russos intensos e fuga de ucranianos antes de novas negociações

Zelensky disse que as tropas ucranianas provocaram 9.000 baixas entre as forças russas, contra as 498 mortes informadas por Moscou

Redação Jornal de Brasília

03/03/2022 10h26

Um grande incêndio foi relatado em Mariupol sitiada pelo exercito russo. O centro comercial Epicenter e a loja Silpo estão em chamas.

As tropas russas, que conseguiram assumir o controle da primeira grande cidade ucraniana desde o início da invasão, intensificaram os bombardeios contra outros centros urbanos, o que obrigou mais de um milhão de civis a abandonar suas casas, enquanto novas negociações visando um possível cessar-fogo são previstas para esta quinta-feira.

No momento em que aumenta o arsenal de sanções, bloqueios e boicotes de resposta dos países ocidentais à invasão iniciada pela Rússia, o presidente ucraniano Volodymyr Zelenski celebrou a resistência “heroica” de seu povo.

Zelensky disse que as tropas ucranianas provocaram 9.000 baixas entre as forças russas desde o início da invasão, um forte contraste com as 498 mortes informadas por Moscou, que divulgou pela primeira vez um balanço desde o começo da ofensiva em 24 de fevereiro.

“Somos uma nação que quebrou os planos do inimigo em uma semana. Planos escritos há anos: pérfidos, cheios de ódio em relação ao nosso país”, disse o presidente, que prometeu reconstruir o país depois da guerra e garantiu que a Rússia pagará o custo.

“Vamos reconstruir cada edifício, cada rua, cada cidade, e dizemos à Rússia: aprenda a palavra ‘reparação'”, declarou Zelensky, de 44 anos.

Uma delegação ucraniana estava a caminho para a segunda rodada de negociações com os russos – após o fracasso do primeiro encontro na segunda-feira -, que coincide com o reconhecimento por parte de Kiev de que perdeu o controle de Kherson, um porto estratégico no Mar Negro, sul do país.

O presidente russo Vladimir Putin pediu “o reconhecimento da soberania russa da Crimeia, a desmilitarização e a ‘desnazificação’ do Estado ucraniano e a promessa de um estatuto neutro” como condições preliminares para uma resolução do conflito.

Avanço russo

As tropas russas que avançam a partir da península da Crimeia – anexada por Moscou em 2014 – têm em seu alvo agora o porto de Mariupol.

“A única coisa que os russos querem é destruir a todos”, lamentou o prefeito de Mariupol, Vadim Boishenko.

Se Mariupol cair, a Rússia poderia garantir uma continuidade territorial entre a Crimeia e os territórios separatistas pró-Moscou da região de Donbass (sudeste).

Outro alvo é Khariv, a segunda maior cidade do país, com 1,4 milhão de habitantes, cenário de intensos bombardeios que mataram vários civis, incluindo uma observadora da missão de vigilância da Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE).

O ataque a Kiev parece estagnado no momento. Fontes do governo americano afirmaram que a imensa coluna de veículos militares que seguia para a capital está “parada” por falta de combustível e mantimentos.

Na cidade de Yitomir, 150 quilômetros ao oeste da capital Kiev, Oleg Rubak chora a morte da esposa Katia em um bombardeio russo.

“Em um momento eu a vi entrando no nosso quarto, e no momento seguinte, nada, nada mais”, disse Rubak à AFP, sentado nos escombros do que era sua casa, com a filha de um ano e meio.

Um milhão de refugiados

Centenas de civis ucranianos morreram desde o início da invasão, que será investigada pelo procurador do Tribunal Penal Internacional (CPI), o britânico Karim Khan, por supostos crimes de guerra após as acusações de Kiev de bombardeios contra zonas residenciais.

Nesta quinta-feira, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) atualizou os números de deslocados e informou que mais de um milhão de pessoas fugiram da Ucrânia em sete dias. Mais da metade delas seguiram para a Polônia.

Os países ocidentais e seus aliados responderam à invasão com uma bateria de sanções para isolar a Rússia nas áreas diplomática, econômica, cultural e esportiva.

Além da exclusão dos principais bancos do sistema de transferência internacional SWIFT, o Banco Mundial suspendeu todos os programas de ajuda na Rússia e em Belarus. E as aeronaves russas estão impedidas de sobrevoar o espaço aéreo que inclui toda a UE, Estados Unidos e Canadá.

O abalo provocado pelas sanções à economia russa levou as agências de classificação Fitch e Moody’s a reduzir as notas da dívida da Rússia para a categoria especulativa, também conhecida como “bônus lixo”.

Em mais um sinal do crescente isolamento, nesta quinta-feira o Comitê Paralímpico Internacional reverteu a decisão adotada 24 horas antes e vetou a participação dos atletas russos e bielorrussos nos Jogos de Inverno de Pequim, alegando que muitas delegações ameaçaram não competir, o que colocava em perigo a viabilidade do evento.

Na Assembleia Geral da ONU, uma resolução para exigir exigir a retirada das tropas da Rússia da Ucrânia e criticar a invasão recebeu na quarta-feira 141 votos favoráveis, apenas 5 contrários – Rússia, Belarus, Coreia do Norte, Eritreia e Síria – e 35 abstenções.

“Guerra nuclear”

O ministro russo das Relações Exteriores, Serguei Lavrov, acusou os políticos ocidentais de considerar uma guerra nuclear e negou que este tipo de armamento integre o plano russo.

O presidente Vladimir Putin anunciou no domingo que colocou em alerta a força de dissuasão nuclear do país. Desde então, o fantasma de um conflito atômico está presente. A alta comissária da ONU para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, advertiu nesta quinta-feira para o “grande impacto” da invasão russa sobre milhões de ucranianos e a ameaça nuclear que pesa sobre “toda a humanidade”.

A ofensiva russa mudou a política de segurança na Europa e a Otan reforçou a presença na região leste da Europa.

A Alemanha, com uma guinada histórica e um forte aumento do orçamento militar, anunciou uma ajuda adicional ao governo de Kiev de 2.700 mísseis antiaéreos.

O presidente francês Emmanuel Macron, que conversou de maneira separada nesta quinta-feira com Putin e Zelensky, disse que “a guerra na Europa não é mais algo dos livros” e que escolheu “seguir em contato” com o presidente russo.

“Nós não estamos em guerra contra a Rússia”, declarou Macron.

Apesar das advertências e da repressão, milhares de pessoas protestaram contra a guerra em Moscou, São Petersburgo e outras cidades russas.

“Eu não podia ficar em casa. Esta guerra tem que ser interrompida”, disse à AFP Anton Kislov, um estudante de 21 anos.

A rádio independente russa Ekho Moskvy (Ecos de Moscou) – emissora histórica na imprensa russa – anunciou sua dissolução após sofrer pressões por sua cobertura da invasão.

© Agence France-Presse

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