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Mundo

Bolivianos mascam coca em La Paz para defender sua "folha sagrada"

Arquivo Geral

10/03/2008 0h00

Cerca de mil bolivianos celebraram hoje nas ruas de La Paz um dia de “acullicu” (mascado de coca) para defender aquela que é considerada sua “folha sagrada” e rejeitar o pedido da ONU de proibir uma prática ancestral no mundo andino.


Com o ato coletivo, dosage cocaleiros bolivianos e membros do Governo de Evo Morales protestaram contra o relatório da Junta Internacional de Entorpecentes (Jife, pills órgão da ONU) que pede a abolição do mascado da folha de coca.


Para o Executivo, esta exigência da Jife está baseada em uma “visão ocidental” e representa “um verdadeiro atentado” contra a cultura andina, disse hoje o ministro de Relações Exteriores, David Choquehuanca.


A Junta, em seu relatório anual sobre drogas, pediu que Bolívia e Peru adotem rapidamente medidas para abolir os usos de coca que contrariem a Convenção de 1961, entre eles a prática de mascá-la e usá-la na fabricação de mate.


A folha de coca, além de ser a base para produzir cocaína após um processo químico, é um artigo tradicional na Bolívia, onde, em seu estado natural, é empregada com usos medicinais, nutritivos e rituais.


Mascada, costume muito disseminado entre bolivianos de toda classe e condição, funciona como um potente analgésico capaz de eliminar a sensação de fome, cansaço, sono e certas dores.


A Jornada Nacional de “acullicu” convocada em La Paz começou com duas horas de atraso e com uma grande manifestação liderada pelos afro-bolivianos da região de Yungas, que desfilaram ao ritmo de sua tradicional “saya”.


Entre atuações musicais e frases contra a ONU e os Estados Unidos, o ato ocorreu em um ambiente festivo, onde mesmo alguns correspondentes estrangeiros se atreveram a participar dos bailes tradicionais, com bastante sucesso de público.


A folha de coca foi a verdadeira protagonista da festa. Foi bastante usada e mascada por camponeses cocaleiros, crianças e até jornalistas.


Um dos pontos altos do dia foi um ritual de oferenda à Pachamama, a deusa e mãe-terra dos andinos, que gerou protestos entre os presentes, porque foi realizado em idioma quíchua.


“Não entendemos, em espanhol”, gritou várias vezes uma das presentes, que pouco antes tinha exigido que o ritual fosse celebrado em aimara, a língua materna da maioria dos participantes.


Por fim, o presidente boliviano, Evo Morales – que também é o principal dirigente cocaleiro da Bolívia -, não compareceu ao ato, apesar de ter sido convidado. O representante do Governo foi o vice-ministro da Coca, Gerónimo Meneses.


“Definitivamente, a comunidade internacional deve entender que na Bolívia a coca é considerada parte da cultura”, disse Meneses em entrevista à Agência Efe.


O vice-ministro boliviano também afirmou que a “declaração da Jife é promovida pelos Estados Unidos” e anunciou uma “campanha internacional” a favor da industrialização da folha.


No mesmo sentido se pronunciou hoje Choquehuanca, que defendeu que a Convenção de 1961 à qual a Jife recorre foi redigida por “europeus, brancos e homens” e “com uma visão ocidental” que não conhece a realidade da cultura andina.


Em sua opinião, o relatório da ONU “entra em contradições” com a Declaração Universal dos Direitos dos Povos Indígenas, de 2007.


Hernán Huanca, um dos cocaleiros que participou da jornada de “acullicu”, afirmou à Efe que a “coca em seu estado natural não é droga”, mas “um meio de sustento que alivia quando não há nutrição”, principalmente na Bolívia, onde “a comida não é suficiente”.


“A cocaína veio do exterior”, ressaltou Huanca, que afirmou que “antes da etapa do colonialismo, não havia droga na Bolívia” e, no entanto, “a coca sempre foi usada”.


Coincidindo com o dia do mascado de coca realizado em La Paz, uma missão do Governo da Bolívia apresentou hoje em Viena, perante a Comissão de Entorpecentes da ONU, um “enérgico protesto” contra o pedido da Jife, que terminou com um “viva a coca”.

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