Menu
Mundo

Bolívia virou santuário para narcos do Brasil, diz chefe da Segurança do país vizinho

Oviedo menciona o esquema para argumentar sobre a importância da colaboração entre as agências de segurança bolivianas e brasileiras

Redação Jornal de Brasília

20/03/2026 8h47

bolívia

Foto: Reprodução

NOVA YORK, EUA (FOLHAPRESS)

Chefe da segurança pública na Bolívia, Marco Antonio Oviedo afirma que a nação convive com o “grave problema” de ser retaguarda para narcotraficantes do Brasil.

“Muitos desses delinquentes fazem do país um santuário, um acampamento, e estamos começando a expulsá-los”, diz à reportagem. “Eles têm documentos falsos e tudo”, segue o ministro, sobre os criminosos que pertencem a grupos como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).

Oviedo menciona o esquema para argumentar sobre a importância da colaboração entre as agências de segurança bolivianas e brasileiras. Durante visita do presidente boliviano, Rodrigo Paz, ao Brasil nesta semana, os dois países assinaram um acordo para fortalecer ações de cooperação e coordenação contra o crime organizado transnacional.

Questionado sobre a possibilidade de a Bolívia declarar o PCC e o CV organizações terroristas, diz que esse plano não está colocado. Pondera, no entanto: “O crime de tráfico de entorpecentes não vem sozinho, mas acompanhado de outros crimes, entre eles o terrorismo. O Equador é o exemplo mais claro.”

“E o Brasil?”, pergunta a reportagem.

“O caso do Brasil também. Mas, no do Equador, fica ainda mais claro: era um país que, há 20 anos, não tinha plantações de coca [base da cocaína], nem narcotráfico, era um país tranquilo. Então chega o narcotráfico e começa o terrorismo, o assassinato de candidatos à eleição…”.

Oviedo tem sido um dos principais artífices do retorno da DEA, a agência antidrogas dos EUA, à Bolívia. A agência tem nove escritórios hoje na América do Sul (três no Brasil), nenhum deles na Bolívia.

Há 17 anos, Evo Morales, o primeiro líder indígena do país e hoje alvo de acusações criminais, expulsou a agência da Bolívia e o embaixador dos EUA. Desde então nenhum outro embaixador americano foi enviado ao país, e as relações comerciais sempre foram lideradas por encarregados de negócios -na linguagem diplomática, um evidente sinal de rusgas.

É tudo que o governo de Rodrigo Paz, que assumiu em novembro passado rompendo duas décadas de governo de esquerda no país, quer mudar. Oviedo diz que o país quer ampliar a cooperação bilateral com várias agências de inteligência, do Brasil inclusive. “Em particular, com a DEA, temos boa relação e queremos mais”, afirma.

Sobre a possibilidade da instalação de escritórios da agência americana em território boliviano, diz que cabe a Washington dizer como quer que a DEA esteja presente ali. “Da nossa parte, vamos facilitar o trabalho deles”.

A primeira ação emblemática da cooperação se deu há uma semana, quando a Bolívia deteve o narcotraficante uruguaio Sebastián Marset, 34, um dos mais procurados na América do Sul, após contar com apoio da DEA no compartilhamento de informações de inteligência.

Líder do Primeiro Cartel Uruguaio (ou PCU), Marset tem laços com o PCC brasileiro e com a máfia italiana ‘Ndrangheta. Nos EUA, para onde foi deportado, Marset é acusado de lavagem de dinheiro. Segundo o Departamento de Estado, ele movimentou recursos provenientes do tráfico de drogas por meio de instituições financeiras americanas.

Rodrigo Paz é mais um líder na América do Sul que tem demonstrado alinhamento às ações e ao discurso de Donald Trump nos EUA. Mas o fez de maneira mais comedida. Outros de seus pares autorizaram a instalação de bases militares conjuntas com Washington, como Daniel Noboa no Equador, e seguiram o discurso da Casa Branca e designaram PCC e CV como terroristas, caso de Santiago Peña, no Paraguai.

Ao menos até aqui, Paz, que na última semana pregou proximidade com o Brasil e agradou o governo Lula, de acordo com interlocutores, tem estado ao lado de Trump e demais autoridades americanas e facilitado a atuação da DEA -algo que, no mais, outros países já o faziam, dado que a agência historicamente teve escritóros de cooperação bilateral na América Latina.

O discurso antiterrorismo também esteve presente no governo do pai de Rodrigo Paz, o ex-presidente Jaime Paz Zamora (1989-1993), naquela época líder da esquerda intelectual e ligada às elites do país, bem diferente da vertente que nasceria anos depois com Evo Morales.

Foi no governo de Paz Zamora que foi desbaratado o EGTK (Exército Guerrilheiro Túpac Katari), grupo que realizava ações armadas no país inspirados em guerrilheiros mexicanos e pregava maior participação indígena. O governo os considerava terroristas.

O intelectual Álvaro Garcia Linera, que anos depois se tornaria vice de Evo, era membro do grupo, ficou preso por cinco anos e disse ter sido torturado. A Anistia Internacional apresentou denúncias sobre torturas contra os membros do grupo praticadas pelo Estado.

Oviedo era vice-ministro da Segurança naquela época e esteve à frente das ações. Agora, está de volta ao poder, com o “Paz filho”, e desta vez com problemas de ordem bem diferente para lidar.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado