Os mais de 20 mil moradores do bairro chinês de Padang, o mais devastado da cidade pelo terremoto que na semana passada arrasou na Indonésia, denunciaram hoje que são tratados como cidadãos de segunda e que quase não receberam ajuda oficial.
Com mais de cem pessoas mortas ou sepultadas sob os escombros e 80% das casas danificadas ou derruídas, o bairro de Ponkok foi o que mais sofreu em Padang, a capital da província de Sumatra Ocidental, mas é o grande esquecido do Governo e dos meios de comunicação.
As autoridades deram ontem por concluídas os trabalhos de busca de sobreviventes nesta cidade para centrar as operações em outras áreas onde se buscou menos, enquanto se estima que milhares de pessoas seguem ainda sepultadas sob os escombros e que o balanço total de falecidos alcançará as 3 mil pessoas.
Os habitantes do bairro chinês, que em sua maioria seguem sem água nem luz, asseguram que nenhum funcionário se aproximou a Pondok a interessar-se pelas vítimas, avaliar os danos ou repartir alimentos.
“Isto é discriminação”, assegurou a Efe Andreas Sofiandi, um indonésio de origem chinêsa nascido em Padang e que exerce como médico em Jacarta, mas que retornou após o terremoto para ajudar.
“Montei um centro de assistência com oito médicos que abre 24 horas ao dia”, explicou Sofiandi, enquanto cumprimenta a dois idosos e uma grávida estendidos em colchões no solo.
Após o terremoto, de 7,6 graus na escala Richter, foram internadas 18 pessoas e, desde então, o número diário de consultas supera as 400.
A atenções médicas e os remédios são gratuitas, porque o centro recebe donativos de meia dúzia de comunidades chinesas na Indonésia, mas nada por parte do Governo regional.
Sofiandi+organizou sessões diárias para crianças com um psicólogo para atenuar o trauma que lhes supôs o terremoto ao perder a algum familiar, seu lar ou escola.
“A solidariedade na comunidade chinesa é muito forte”, ressaltou o médico, em contraposição à marginalização oficial da qual são objeto e que afunda suas raízes em antigas diferenças étnicas, culturais e religiosas.
A organização Himpunan Bersatu Teguh (HBT) é outro exemplo de cooperação dentro do bairro chinês de Pandang: prepara diariamente 600 refeições para os desabrigados e dá abrigo a cerca de 20 famílias deslocadas.
“Tento me concentrar no dia a dia, em cozinhar para todos os que não têm que comer. Não sei que vai acontecer em umas semanas”, confessa Magriet, uma das responsáveis pela HBT, que dedica seis horas ao dia a preparar comidas.