ISABELLA MENON
WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS)
O governo dos Estados Unidos nomeou Darren Beattie para o cargo de Conselheiro Sênior de Política para o Brasil. A informação foi publicada pela agência de notícias Reuters e confirmada pela Folha de S.Paulo por um alto funcionário do Departamento de Estado.
Antes de Beattie, não havia ninguém nesta posição. Ainda de acordo com este funcionário, o nomeado trabalha com assuntos educacionais e culturais, onde continua a “promover a agenda de política externa America First”, e preside o recém-renomeado Instituto Donald J. Trump para a Paz.
Segundo interlocutor que conhece Beattie, ele já ocupa o cargo há cerca de dois meses. E tem cumprido, mesmo antes da nomeação oficial, a função de facilitar o trânsito de informações sobre o Brasil para a Casa Branca e vice-versa.
O conselheiro é um ativista da ultradireita e, no ano passado, publicou nas redes sociais criticas ao ministro Alexandre de Moraes (Supremo Tribunal Federal).
“O ministro Moraes é o coração pulsante do complexo de perseguição e censura contra Jair Bolsonaro, o que, por sua vez, tem restringido a liberdade de expressão nos EUA. Graças à liderança do presidente Trump e do secretário [Marco] Rubio, estamos atentos e tomando as devidas providências”, disse Beattie, citando o chefe da diplomacia americana.
O novo conselheiro já se encontrou com brasileiros de direita, como o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL) e o influenciador Paulo Figueiredo no ano passado.
Depois, o comentário foi publicado também nas redes sociais da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil.
Poucos dias depois, o Departamento do Tesouro americano impôs punições financeiras ao ministro, aplicadas por meio da Lei Magnitsky. A sanção foi retirada no fim do ano passado.
Durante a campanha presidencial de 2024, Beattie foi acusado de racismo e misoginia por dizer nas redes sociais que “homens brancos competentes precisam estar no comando se você quiser que as coisas funcionem”. Ele sugeriu também que a comunidade de inteligência dos EUA poderia estar por trás de tentativas de assassinar Trump.
Em 2018, Beattie foi demitido da Casa Branca por ter participado de um encontro com nacionalistas brancos dois anos antes. Ele havia aparecido em um painel com Peter Brimelow, fundador do site anti-imigração VDare, que o grupo Southern Poverty Law Center classificou como um “site de ódio”.
Em 2020, a Casa Branca nomeou o funcionário para uma comissão que ajuda a preservar locais relacionados ao Holocausto. A decisão foi criticada pela Liga Antidifamação, um conhecido grupo judaico.
A nomeação de Beattie acontece em meio a um momento de certa melhora da relação entre os Estados Unidos. Após encontro em Nova York, em meio a Assembleia da ONU, em que eles se abraçaram, os presidentes já realizaram ligações e houve uma reunião na Malásia. Após isso, os EUA diminuíram as taxas impostas ao Brasil, que chegaram em 50%, e no fim do ano foram retiradas as sanções a Moraes.
O presidente brasileiro, por sua vez, disse que deve viajar aos Estados Unidos e, apesar de ainda não ter uma agenda fechada, a expectativa é que o encontro aconteça em março.
A ideia, segundo Lula, é que o encontro seja marcado por discussões acerca de questões relacionadas a segurança, como o combate ao crime organizado. Segundo interlocutores, esta seria uma agenda que o Palácio do Planalto encontra como forma de debater um assunto em comum com o presidente americano, apesar de os dois líderes terem ideais ideológicos opostos.
O governo brasileiro não teme que a nomeação de Beattie vá atrapalhar os planos da reunião, segundo apurou a Folha de S.Paulo.