RAMANA RECH
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Um dispositivo desenvolvido por professores e ex-alunos da USP contribuiu no monitoramento da saúde de astronautas na Artemis 2, a primeira missão tripulada à Lua deste século. Na universidade, o dispositivo foi construído para viabilizar pesquisas sobre sono e cronobiologia.
Chamado de actígrafo, o aparelho mede exposição à luz, temperatura do punho e atividade do braço. Na Nasa, ele faz parte do Programa de Estudo Humano e ajudou a medir padrões do sono e da vigília dos astronautas da Artemis 2. Esse é o único actígrafo desenvolvido em solo brasileiro.
No contexto espacial, o aparelho -que fica preso ao punho como um relógio- pode ajudar a entender como o corpo humano se comporta sem os referenciais da Terra, como divisão entre o dia e a noite.
A Artemis 2 durou poucos dias, mas há perspectivas de missões mais longas, o que torna essas informações ainda mais cruciais.
“Há muitos fatores novos, e a ideia é precisar dados para avaliar a saúde dos profissionais que foram [na Artemis 2] e para melhorar as missões futuras”, diz Rodrigo Okamoto, cofundador com Luis Filipe Fragoso de Barros e Silva Rossi da startup Condor Instruments, que produz os dispositivos.
Okamoto e Rossi ficaram surpresos ao descobrir apenas em 1º de abril, dia do lançamento da missão, que o dispositivo embarcaria na jornada lunar. A Nasa havia entrado em contato em 2023 e, no fim do ano passado, a empresa soube que o aparelho recebeu aprovação para voo. Mas não havia confirmação de que o dispositivo seria usado.
Da mesma forma, Okamoto e Rossi não sabem se o actígrafo da Condor será levado em futuros voos espaciais da Nasa. “A gente entende que, se já foi aprovado e utilizado uma vez, aumenta a nossa chance de ser de novo, mas nada garante”, comenta Okamoto.
Rossi diz que a empresa pretende continuar a aprimorar o aparelho, mas acrescenta: “Missões espaciais são legais, mas não é esse mercado que faz a empresa se mover”. A Condor Instruments vende os dispositivos principalmente para clínicas da Europa e dos Estados Unidos, onde os “relógios” têm serventia na coleta de dados da rotina e do sono de pacientes.
O INÍCIO NA UNIVERSIDADE
A elaboração do actígrafo começou no grupo de pesquisa coordenado pelo professor Luiz Menna, hoje na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP. Na época, ele estava no Instituto de Ciências Biomédicas. O Grupo Multidisciplinar de Desenvolvimento e Ritmos Biológicos (GMDRB) foi construído no início dos anos 80 por jovens doutores unidos por uma pergunta: como o corpo muda?
Na época, começava a ser difundida a cronobiologia, o estudo dos ciclos e ritmos biológicos dos organismos ou, como define Menna, “a biologia do tempo”. O grupo estava interessado em construir séries históricas de dados diários sobre a temperatura de diferentes partes do corpo em diferentes momentos do dia. Isso porque a temperatura corporal varia a depender do corpo e do horário do dia.
“Cada célula nossa tem um sistema de temporização próprio e que se mantém engrenado, por assim dizer, se mantém ajustado. Quem ajusta isso, entre outras coisas, é a temperatura corporal”, explica o professor.
A partir de estudos e medições, o grupo concluiu que a temperatura mais adequada a ser medida era a do punho, o que ensejou a construção de dispositivo de aparência similar a um relógio que captasse a atividade do braço, a luz e a temperatura ao mesmo tempo.
Mario Pedrazzoli, também professor da EACH, fez parte do grupo do professor Menna, onde entrou em contato com o dispositivo. Ele foi o responsável por aumentar o número de dispositivos disponíveis e fazer com que chegassem até a Condor.
No início do século 21, Pedrazzoli havia retornado há pouco tempo ao Brasil de um pós-doutorado em Stanford (EUA). Ele foi trabalhar na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), porém se aproximou de Menna pela especialização do colega em cronobiologia.
“Nesse contato com ele, eu tomo conhecimento do aparelho. Eu achei uma ideia muito boa. Na época eles estavam com um pouco de dificuldade de financiar uma certa produção”, relembra Pedrazzoli. Havia interesse em elevar o número de dispositivos para realizar mais pesquisas.
Para aprimorar e aumentar a produção do protótipo, Pedrazzoli chamou aqueles que seriam os futuros fundadores da Condor Instruments, Okamoto e Rossi, na época alunos de pós-graduação da Escola Politécnica da USP.
A dupla relata ter entrado em contato com Pedrazzoli em 2012 e, no ano seguinte, veio a startup. Rossi e Okamoto contaram com R$ 195 mil vindos de recursos da Fapesp voltados ao fomento de pequenas e médias empresas, segundo a Condor.
USO EM EXPERIMENTOS CIENTÍFICOS
Hoje, Pedrazolli utiliza os “relógios” para experimentos dentro do Grupo de Interdisciplinar de Pesquisa em Sono (GIPSO), fundado em 2015 pelo professor. O dispositivo permite realizar estudos com grandes amostras populacionais. Antes, para fazer tais testes seria necessário mais estrutura.
O exame tradicional de sono, a polissonografia, por exemplo, demanda “ir para um laboratório, tem que dormir na cama, pôr um monte de fio na cabeça”, afirma Pedrazzoli.
Em um dos trabalhos mais recentes do grupo, publicado no fim de 2025, os pesquisadores concluíram, a partir de dados coletados pelo actígrafo, que a elevação da temperatura da pele antecede o sono em alguns minutos. “A gente pode perceber que a temperatura é o marcador de que o sono vai acontecer”, diz ele.
Do ponto dos estudos do sono, a construção do dispositivo busca preencher uma lacuna dentro da cronobiologia que é “sair do laboratório e entender as pessoas dormindo no dia a dia”.
Isso em um contexto que Pedrazzoli chama de “epidemia de mau dormir”, que tem consequências na saúde da população, como maior risco de desenvolvimento de demência, obesidade e doenças cardíacas.